ERA PRÉ-SOCRÁTICA

A filosofia não nasceu na Grécia. A terra natal de Tales, considerado o primeiro filósofo da história, é Mileto, cidade do sul da Jônia, região que hoje pertence à Turquia. Ou seja, é correto dizer que a filosofia nasceu no mundo grego, mas o mundo grego dos séculos 7 e 5 a.C. não tem nada a ver com a Grécia de hoje. Abrangia a costa do Mar Egeu, de Mármara e boa parte do Mar Negro, além do sul da Itália e das regiões costeiras da França, Espanha e África. Demorou quase cem anos para a filosofia chegar à capital Atenas, onde viveu Sócrates, uma espécie de Jesus Cristo da filosofia.

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Motivo: assim como o calendário está dividido em antes e depois do surgimento do messias cristão, a filosofia também tem duas eras: pré e pós-Sócrates. Na era pré-socrática, a principal preocupação era saber de que era feito o mundo e o ser humano. A pergunta “de que são feitas as coisas?” pode soar ingênua e até infantil. Mas o filósofo Timothy Williamson, de Oxford, considera uma das melhores perguntas já proferidas — uma questão que nos conduziu a boa parte da ciência moderna. Pela primeira vez na história, os pensadores colocaram o raciocínio na frente da mitologia. Eles não engoliam a ideia de que o mundo surgira do nada. “Nada vem do nada e nada volta ao nada” era uma premissa básica para os pré-socráticos, o que significava dizer que o mundo é uma eterna reciclagem, tudo se transforma sem jamais desaparecer. Eles tinham até uma palavra para esse mundo perene: physis, do verbo grego “fazer surgir”. Physis era a origem de todos os seres e coisas mortais do mundo, que estão em permanente transformação. O café quente esfria, o inverno vira primavera, o longe fica perto se formos até ele, a criança cresce e vira um adulto. A natureza está em constante transformação, mas isso não quer dizer que ela é caótica. As mudanças seguem uma lógica determinada pela physis.

Mas afinal o que era a physis? Cada pensador achava que era uma coisa. Tales afirmava que o princípio era a água ou o úmido. Anaximandro, o infinito. Anaxímenes, o ar. Pode parecer simplório, mas era a primeira vez que se buscava uma resposta racional para a origem do mundo.

TALES DE MILETO

Criado em uma época na qual a religião explicava todas as coisas, das guerras aos casamentos infelizes, Tales de Mileto rompeu com o pensamento mitológico e deu o pontapé inicial da filosofia. Foi o primeiro a usar o raciocínio puro para explicar as questões do homem e da natureza.

Nascido na colônia de Mileto, atual Turquia, Tales é considerado o responsável por tirar a civilização helênica das trevas intelectuais. A fama vai além das contribuições para a filosofia. Em 585 a.C., conseguiu prever um eclipse total do Sol. Sua aptidão para os negócios também era invejável. Certa vez, percebeu que as condições do tempo estavam favoráveis para a colheita e investiu no ramo das azeitonas prevendo que o clima turbinaria uma safra recorde. Dito e feito: Tales encheu os bolsos de dinheiro. Porém, o pensador ficou mais conhecido pelo teorema de Tales, que ele formulou medindo a pirâmide de Quéops, no Egito, utilizando apenas uma estaca e as sombras dela e da pirâmide. Hoje, o teorema é fundamental para medições geométricas, utilizado desde a construção civil até a astronomia.

Na filosofia, ele acreditava na existência de uma matéria-prima básica responsável pela origem do Universo: a água. Em uma de suas frases mais conhecidas, Tales teria dito que “o Universo é feito de água”. Ele observou que, sem água, tudo morria. Logo, ela era a fonte da vida. Tales chegou a afirmar que a Terra flutuava sobre um disco de água a partir do qual tudo emergiu. Ironicamente ou não, a sede teria sido um dos motivos da sua morte, aos 78 anos. “Tales sucumbiu por causa do calor, da sede e do esgotamento da velhice”, descreveu o biógrafo Diógenes Laércio.

Tales não deixou textos. Tudo o que se sabe sobre ele é baseado na tradição oral e em registros de outros pensadores. Teve uma vida isolada e íntima. Não cobrava nada de seus discípulos e, humildemente, desafiava outros sábios a contestarem suas ideias.

ANAXIMANDRO

Responsável por continuar o pensamento de Tales, Anaximandro foi político, administrador e construtor de relógios solares — um cidadão célebre. Seu busto foi encontrado em posição de destaque nas ruínas de Mileto. Assim como Tales, acreditava na existência de um princípio primordial para o Universo, mas discordava de que fosse a água. Nas três frases deixadas pelo pensador, que são os primeiros textos de filosofia escritos, ele defende que o infinito é a origem de tudo, porque somente algo ilimitado e eterno poderia explicar a multiplicidade das coisas.

ANAXÍMENES

Nem água, nem infinito. Para o último dos filósofos de Mileto, o ar era o item fundamental. Ele observou que os lábios franzidos produzem ar frio e, quando relaxados, ar quente — concluindo que a condensação esfria e a expansão aquece.Para ele, a condensação do ar teria dado origem a névoas, chuvas e rochas, ou seja, ao planeta todo. Afinal, nada sobreviveria sem o ar.

PARMÊNIDES

O grande Platão o reconheceu como pai espiritual e dedicou a ele um de seus diálogos. A profundidade das ideias e argumentações de Parmênides é considerada até hoje uma das mais ricas da história. E se filosofar já é difícil, imagine deixar as teorias gravadas em formato de poesia. Parmênides o fez. Está tudo registrado em poemas filosóficos (exatamente 154 versos).

Nascido em Eleia, hoje sul da Itália, Parmênides é considerado o principal nome da escola eleática, um dos últimos movimentos filosóficos do fim da era pré-socrática. Seu grande mérito foi ter reconhecido que nossos sentidos nem sempre estão certos, valorizando a importância de fazer uma interpretação racional do mundo. Parmênides chegou a uma conclusão oposta à do contemporâneo Heráclito. Para ele, a Teoria do Devir não poderia estar certa, porque algo que “é” e “não é” ao mesmo tempo não passa de uma contradição. Não há uma terceira possibilidade, dizia Parmênides. Ou o ser é uma coisa ou não é.

HERÁCLITO

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Quando imergimos, águas novas substituem aquelas que nos banharam antes. O exemplo serviu para ilustrar a Teoria do Devir de Heráclito de Éfeso, sua tese mais famosa. Para ele, o Universo anda num eterno fluir, com cada coisa sendo e não sendo ao mesmo tempo.

Para Heráclito, era o logos — algo como razão ou inteligência — que governa o mundo. Ele reconhecia que todos os homens possuem o logos, mas acreditava que a maioria (que chamou de “adormecidos”) não desenvolvia essa inteligência. Apenas os “despertos” utilizavam o logos de modo consciente. Suas teorias só foram reveladas após seu bizarro suicídio: cobriu o corpo de esterco e foi para a praça, onde foi devorado por cães. Heráclito deixou frases gravadas em lâminas de ouro que ficaram secretamente guardadas com sacerdotes. Eram curtíssimas e com duplo sentido, como no trecho “a rota para cima e para baixo é uma e a mesma”.

PITÁGORAS

Quando Pitágoras descobriu que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos, seus discípulos consideraram a descoberta uma revelação divina. Ele próprio acreditava que sua conclusão não havia surgido do pensamento lógico, mas de uma iluminação. Filósofo e matemático, Pitágoras também era considerado um líder espiritual. Talvez sua beleza tenha ajudado na fama. Pitágoras, conta-se, era lindo de morrer. Seus discípulos desconfiavam que ele era, na verdade, o deus Apolo. Certo dia, segundo reza a lenda, alguns que o viram nu disseram que sua coxa era feita de ouro.

Aos 40 anos, o filósofo-matemático saiu da cidade natal na Ilha de Samos e foi para Crotona, na Itália, onde fundou uma seita. Os alunos da escola pitagórica, cerca de 300, viviam em comunidade e passavam os dias estudando as teorias do filósofo. A imposição de rituais estranhos, como o que proibia morder um pão inteiro ou alisar a marca do corpo deixada no lençol ao levantar da cama, leva a crer que Pitágoras também teria traços de um obsessivo-compulsivo.

Ele se achava. Dizia que ficara 200 anos no inferno antes de chegar aos homens, em uma longa preparação para chegar ao reino dos mortais. Suas teses tinham valor de dogmas — poucos tinham permissão para questioná-lo. Sua principal teoria era baseada nos números. Enquanto os filósofos de Mileto acreditavam que a causa de tudo era um elemento físico ou o infinito de Anaximandro, o pensador defendia que os números eram o motivo e o princípio de tudo. Até o cosmos poderia ser quantificado de acordo com a teoria pitagórica. Mas os números de Pitágoras eram diferentes dos nossos algarismos. Não eram abstratos e ocupavam uma dimensão espacial, em formas de quadrados e triângulos. Outra ideia badalada do pensador foi a da”música cósmica”. Para Pitágoras, os astros tocavam uma melodia perfeita e divina durante seu movimento. Mortais não seriam capazes de ouvir a tal canção porque os sons contínuos passam despercebidos pelos nossos sentidos.

A seita pitagórica não teve um final feliz. Cidadãos de Crotona se revoltaram contra a comunidade, considerada uma panelinha aristocrática. Os revoltosos mataram seguidores de Pitágoras, que fugiu da cidade e se refugiou em Metaponto, onde morreu pouco tempo depois. Após sua morte, os discípulos criaram novos centros para difundir a seita e as teorias. O mestre não deixou nada escrito. Tudo o que se sabe de suas doutrinas só ganhou visibilidade com os livros do pitagórico Filolau, os quais Platão comprou sob encomenda.

PROTÁGORAS

Pela primeira vez, um filósofo colocava o homem no centro do pensamento. Ao afirmar que “o homem era a medida de todas as coisas”, Protágoras inaugurava a ideia de que a verdade depende da experiência pessoal. Nascido em Abdera, na Grécia, Protágoras concluiu que qualquer afirmação sempre era relativa a um ponto de vista, a uma sociedade ou ao modo de pensar. Protágoras foi o principal nome de uma escola polêmica na Grécia nos meados do século 5 a.C. Os sofistas (palavra que pode ser traduzida como sábios ou sabedoria) argumentavam contra e a favor de teses com a mesma eloquência. O objetivo era ganhar qualquer discussão. Foram os primeiros a fazer do conhecimento uma profissão: cobravam de jovens atenienses por aulas de retórica, o que desagradava os intelectuais da época. Foi banido de Atenas após questionar a existência dos deuses e morreu logo depois, em um naufrágio enquanto fugia para a Sicília.

GÓRGIAS

Seria errado culpar a adúltera Helena pela Guerra de Troia. A moça, na verdade, foi uma vítima das palavras. Páris, seu sedutor, teria usado o poder da linguagem para manipular a mente de Helena. Usando essa argumentação, o sofista Górgias explicou o poder mágico que, para ele, existia nas palavras. Gênio da retórica, o filósofo acreditava piamente na persuasão da linguagem. Era uma espécie de precursor dos publicitários, capaz de sustentar opiniões absurdas e convencer seu público usando apenas o talento argumentativo. Pela retórica, Górgias e os sofistas provaram que a inteligência também poderia ser usada para mentir, seduzir e impressionar.

Nascido na cidade de Lentini, na Sicília, o sofista teria vivido 108 anos em perfeita saúde e propondo pensamentos radicais. O mais famoso foi o das três teses: 1) nada existe; 2) se algo existisse, não poderia ser pensado e 3) se algo existisse e pudesse ser pensado, não poderia ser explicado. A ideia polêmica ganhou várias interpretações. Há quem diga que foi apenas uma brincadeira feita durante um dos discursos de Górgias para assustar os ouvintes. Outros sustentam que era uma forma radical de ceticismo.

ERA CLÁSSICA

Entre os séculos 6 e 5 a.C., o mundo grego sofreu uma reviravolta socioeconômica decisiva para o surgimento de pensadores da estatura de Sócrates, Platão e Aristóteles. A cultura agrária e aristócrática da Grécia, que na época reunia cidades-Estados e não formava um país como hoje, deu lugar à vida urbana e democrática. Uma nascente indústria artesanal e o comércio levaram hordas de gregos do campo para as cidades. A nova classe trabalhadora passou a questionar o poder político da monarquia e, por volta de 507 a.C, o reformador Clístenes introduziu um princípio crucial que alterou a ordem social na região: a igualdade dos homens perante a lei e o direito de todos participarem das decisões políticas da comunidade. A Grécia virou uma democracia direta. Nascia a figura do cidadão. Boa parte dos habitantes podia dar pitaco nas reformas da cidade e expressar opiniões em público (exceto mulheres e escravos, mas paciência…).

Mas era preciso saber falar para ser ouvido. O ideal de educação no novo mundo grego valorizava a formação do cidadão e não mais exaltava as virtudes aristocráticas, típicas dos poemas de Homero e Hesíodo, para quem o homem ideal era o herói de guerra atlético e corajoso. Os novos professores da classe cidadã eram os sofistas, pensadores que se apresentavam como mestres da oratória e da retórica e contestavam tudo e todos. Para os sofistas, o bom cidadão era persuasivo. Quem dominava a oratória ganhava qualquer discussão em uma assembleia na pólis. Certo? Sim, mas não para Sócrates, o pai da filosofia ocidental.

Sócrates construiu grande parte de seu pensamento em oposição ao sofistas, aos quais acusava de não ter respeito pela verdade. Como podiam defender uma ideia ou outra apenas para obter vantagem? Cadê a vergonha na cara? Para o mestre de Platão, o importante era buscar a essência das coisas e do mundo, o conceito de valores como justiça, amizade, amor, beleza e prudência. A verdade vem da reflexão racional sobre o que nos rodeia e não da percepção ou da opinião. O pai da filosofia distribuía perguntas pelas ruas da capital Atenas que desconcertavam os cidadãos gregos— O que é a beleza? Você diz que justiça é importante, mas o que é a justiça? Por que você pensa o que pensa?— e deu forma e método para a filosofia como a conhecemos hoje. Foi o primeiro filósofo “profissional”. Durante o período de ouro na Grécia, a filosofia se debruçou sobre quatro conceitos-chave: o bom, o belo, o bem e o justo. Mas não havia limites para o pensamento do trio filosófico mais influente da Antiguidade. Sócrates, Platão e Aristóteles estavam envolvidos com grandes questões: o sentido da vida, justiça social, administração das cidades, a busca da felicidade, como ser um bom cidadão. Mas iam além. A voracidade intelectual de Aristóteles era algo sem precedentes. O filósofo de Estagira (cidade do nordeste da Grécia) se interessou por todos os assuntos, da física à biologia passando pela ética, a política e a metafísica. A filosofia clássica foi a mãe das ciências — ideia que vai persistir até o final do século 18.

SÓCRATES

Sócrates é para a filosofia o que Jesus representa para o cristianismo. Assim como o profeta, veio de uma família pobre, nunca escreveu uma palavra, incomodou muita gente e foi admirado por uma legião. Perambulava pelas ruas, onde parava desconhecidos e fazia perguntas embaraçosas. Como Jesus, Sócrates morreu de forma trágica. De origem pobre, seguiu a mesma profissão do pai, escultor. Mas o ofício logo foi abandonado com a convocação para a guerra do Peloponeso, onde defendeu Atenas contra Esparta. Foi também nessa época que o sábio encontrou o amor — ou melhor, os amores. Não que ele fizesse sucesso com as mulheres — pelo contrário, dizem que sua feiúra era incomparável —, mas a escassez de homens depois das batalhas fez os governantes criarem uma lei extraordinária que permitia o casamento com duas mulheres. Sócrates escolheu Xantipa e Mirton como esposas.

Se lhe faltavam atributos estéticos, sobrava lábia. Sócrates falava dia e noite sem parar, inquerindo quem quer que cruzasse o seu caminho. A sede insaciável de diálogo ficou conhecida como método socrático, ou dialética. Passava os dias formulando questões e perguntando insistentemente, sem desenvolver uma teoria sequer. Dos diálogos, tentava estimular pensamentos sobre o que é o bem, o justo, o bom e o belo. A vida e a moral eram as grandes preocupações do pai da filosofia ocidental. Ele definiu o que acreditava ser uma vida virtuosa, onde a paz de espírito era atingida fazendo o certo, o que não era a mesma coisa que seguir o código moral da época. Fazer a coisa certa era uma questão de consciência — Sócrates acreditava que ninguém deseja fazer o mal. Esse princípio levaria à famosa máxima “Conhece-te a ti mesmo”, inspirada na inscrição do Oráculo de Delfos, centro de consulta aos deuses gregos. Certa vez, perguntou se ser enganador correspondia a ser imoral. “É claro que sim”, respondeu o interlocutor. Sócrates, então, indagou: “Mas e se um amigo estivesse muito triste e quisesse se matar e você roubasse a faca dele? Não seria um ato imoral?” Sim, ouviu como resposta. Sócrates concluiu: “Mas seria moral em vez de imoral, já que seria uma coisa boa e não ruim”. A essa altura, enquanto os neurônios do cidadão se debatiam, Sócrates dava-se por satisfeito. Ele próprio comparou esse método com a profissão de parteira da sua mãe. Sua mãe usava a habilidade para trazer à luz a vida. Ele paria a verdade. Um dia, um amigo de Sócrates consultou o Oráculo de Delfos. Desejava saber se existia alguém mais sábio que o filósofo. A resposta foi direta: “Não, ninguém é mais sábio que Sócrates”. Quando soube da resposta, Sócrates ficou pasmo com a afirmação e foi procurar políticos e poetas para provar o erro do Oráculo. Foi em vão.

Conta-se que, ao conversar com outros sábios, Sócrates concluiu que todos acreditavam que tinham um conhecimento profundo sobre algum assunto, quando, na verdade, não era bem assim. A sabedoria do pensador estava em não alimentar ilusões sobre o próprio saber. Foi dessa lógica que Sócrates extraiu a histórica frase “só sei que nada sei”, pensamento que lhe rendeu vários inimigos em Atenas, que o acusaram de ser, na verdade, um sofista interessado em se aproveitar da retórica para mentir. O filósofo foi levado ao tribunal, acusado de colocar em risco a moralidade ateniense e dissuadir a crença nos deuses. Recusando-se a abrir mão de suas ideias, o sábio tomou um cálice de cicuta — veneno extraído de uma planta que paralisa gradualmente o corpo. Morreu aos 70 anos. Durante o julgamento, disse uma de suas frases mais marcantes: “A vida irrefletida não vale a pena ser vivida”. Segundo relatos de Platão, seu maior discípulo, Sócrates preferia a morte do que viver sem questionamentos, na completa ignorância. Teria declarado ainda que, se corromper a juventude significava ensinar a cuidar menos do corpo e mais da alma, então era culpado. Sócrates não escreveu nada, mas disse muito. Poucos minutos antes de cumprir seu destino, se despediu dos discípulos: “Já é hora de irmos. Eu para a morte, vocês para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo? Isso é segredo. Exceto para Deus”.

EPICURO

Durante escavações em sítios arqueológicos gregos e romanos, foram encontradas várias estatuetas de Epicuro. Era normal que os intelectuais da época guardassem estátuas de filósofos, mas o que chamou a atenção é que as de Epicuro estavam presentes até nas casas simples. Os seguidores do filósofo, nascido na ilha de Samos, acreditavam que contemplar seu rosto aquietava o espírito. Epicuro adorava comparar seu pensamento à medicina. Proclamava-se um terapeuta do espírito, médico das almas e cirurgião das paixões. Na sua escola, chamada de O Jardim, acolhia mulheres, escravos e até mesmo prostitutas para suas “consultas”.

Como Aristóteles, acreditava que o maior objetivo da vida era a felicidade. Mas ia além. Achava que a dificuldade em atingi-la estava no medo que sentimos da morte. Epicuro se propôs a resolver o impasse: se a morte é o fim das sensações, ela não pode ser fisicamente dolorosa, e, se é o fim da consciência, não pode causar dor emocional. Ou seja, não há nada a temer. Superado esse medo, podemos ser felizes. Epicuro morreu aos 72 anos. Não sabemos se ele estava completamente destemido em relação ao juízo final, mas, em uma de suas últimas cartas, comemorou a vida doce, feliz e sempre digna de ser vivida.

PLATÃO

Principal discípulo de Sócrates, Platão se encarregou de registrar as ideias do mestre na forma de diálogos. Seu texto é uma mistura de teorias complexas com fragmentos teatrais que traziam o mestre como protagonista, dialogando sobre a vida, a razão e a verdade. Platão escreveu ao longo da vida cerca de 40 diálogos, verdadeiras obras-primas filosóficas e literárias. Temos a sorte de contar hoje com tudo o que o filósofo escreveu.

É de Platão um dos textos filosóficos mais lidos da história, o Mito da Caverna. Conta a fábula de prisioneiros que foram acorrentados em uma caverna escura quando crianças sem jamais poder sair dali. Tudo o que conheciam do mundo eram sombras da vida real projetadas nas paredes, ou seja, cópias imperfeitas das coisas, que conservam suas formas verdadeiras no mundo das ideias, uma espécie de paraíso onde está guardado o padrão de tudo o que existe — principal teoria de Platão. O mundo das ideias existe em oposição ao mundo dos sentidos, esse no qual vivemos, recheado de cópias defeituosas de tudo o que existe no plano superior.

Quando um dos escravos foge da caverna e fica deslumbrado com a verdadeira forma das coisas, Platão faz uma metáfora com os filósofos, que ascendem por meio do conhecimento. Ele defendia a tese de que o mundo das ideias só poderia ser acessado pelos filósofos. Logo, era essa a classe mais indicada para governar a pólis. Esse pensamento originou a teoria política de Platão, na qual ele cria a cidade ideal. Nela, existiriam apenas três categorias de cidadãos, cada um desempenhando a tarefa para a qual estava melhor preparado. Aqueles que tinham a “alma com apetite” seriam trabalhadores; os corajosos, os guardiões da pólis; e os dotados de sabedoria e razão, os governantes-filósofos.

A tarefa do rei filósofo seria justamente a de regressar à caverna e relatar o mundo das ideias para os demais – isto é, contar a verdade para a sociedade. Na comunidade ideal de Platão, os casamentos seriam coletivos e sem casais fixos. O sexo seria somente para a reprodução, e as crianças criadas pelo Estado como filhos da comunidade. O pensador também lançou a ideia de igualdade dos sexos. Na cidade ideal, as mulheres não seriam discriminadas e poderiam ocupar até postos no serviço militar. Essa teoria levou Platão por três vezes até a cidade de Siracusa, na Sicília, onde pretendia persuadir os soberanos a colocar em prática seu plano. Sem sucesso, chegou a ser preso.

Mas, antes de virar Platão, o filósofo, ele era Aristócles, seu nome de batismo, um estudante das letras e da pintura com excepcional dom para a ginástica. O apelido, Platão (Pláton, em grego), que significa amplo, teria sido uma criação do treinador Áriston de Argos por causa do porte musculoso do aprendiz. A transição do esporte para o pensamento veio aos 20 anos, quando foi apresentado a Sócrates. A parceria durou cerca de uma década, até os últimos minutos da vida do mestre. Depois da morte do professor, Platão fundou a própria escola em Atenas. Considerada por alguns como a primeira universidade e inspirada nas comunidades criadas por Pitágoras, a Academia ensinava matemática e geografia. O grande avanço era o ingresso de mulheres que, pela primeira vez, podiam estudar. O aluno mais ilustre foi Aristóteles. Platão morreu aos 70 anos. Em sua lápide ficaram gravadas as seguintes palavras: “Aqui jaz o divino Aristócles, que em prudência e justiça soube exceder a todos os mortais. Se a sabedoria eleva alguém às alturas, este as conseguiu. A inveja em nada lhe empanou a glória”.

ARISTÓTELES

Os jardins do palácio de Pela, capital da Macedônia, hoje parte da Grécia, foi um local que despertou a genialidade de um dos maiores pensadores da história. Nascido em Estagira, no nordeste grego, Aristóteles foi ainda criança para Pela quando seu pai, Nicômaco, foi chamado para ser o médico do avô de Alexandre, o Grande. Conta-se que Aristóteles brincava nos jardins do palácio e se interessava por quase tudo a sua volta: insetos, plantas, ervas daninhas. Por volta dos 18 anos, ficou órfão e gastou o que herdara do pai em vinho e festa. Em 367 a.C., ele partiu para Atenas e ingressou na Academia de Platão — e de bon vivant se tornou um dos maiores gênios da filosofia.

Aristóteles entrou na escola apenas como ouvinte, mas Platão logo percebeu que ele não era um aluno qualquer e lhe deu a missão de lecionar retórica. Ele permaneceu na Academia por 20 anos até a morte do mestre, quando, insatisfeito com os rumos que a escola tomava, seguiu para a Macedônia para dar lições a Alexandre, o Grande. Antes disso, casou-se duas vezes e teve Nicômaco, seu único filho. Aristóteles aprendeu muito com o mestre Platão, mas foi também seu maior crítico. O filósofo não acreditava na teoria do mundo das ideias apresentada no Mito da Caverna. Para ele, o mundo real, a natureza, não tem nada de ilusório. Aristóteles acreditava que a verdade está neste mundo e não em um universo paralelo, como acreditava Platão. Aristóteles dizia que eram os homens que formulavam os conceitos a respeito das coisas para poder reconhecê-las. Veja o exemplo de uma cadeira. Depois de observar centenas de cadeiras, nós mesmos poderíamos definir o que era o conceito de cadeira e, desta forma, reconheceríamos um exemplar quando nos deparássemos com uma. E a cadeira na qual estamos sentados agora não é apenas um simulacro de uma cadeira verdadeira existente no mundo das ideias, como Platão diria. O pupilo também não acreditava na dialética como um método seguro de conhecimento. Para Aristóteles, debater ideias é bom para a política e a retórica, mas não é indicada para a filosofia ou para a ciência. Assim, ele fundou a lógica, que definiu como um instrumento seguro para conhecer o mundo.

Aristóteles tratou de absolutamente todos os temas da sua época com uma profundidade revolucionária. As contribuições aristotélicas na metafísica, retórica, ética, filosofia política, além da matemática, da física e da zoologia, são ainda hoje citadas em faculdades mundo afora. Um dos seus principais legados foi no campo da lógica, onde sistematizou o estudo propondo uma abordagem semântica, ou seja, analisando como duas premissas podem formar uma conclusão verdadeiramente indiscutível.

Apenas a medicina passou ao largo da erudição aristotélica, mas até para isso o gênio tinha uma resposta: ele se focava em áreas que tinham déficit de conhecimento, o que julgou não ser o caso da medicina. Além das contribuições à ciência, é de Aristóteles uma das ideias mais originais sobre felicidade. Desde Sócrates, os filósofos vinham se perguntando como, afinal, o ser humano deveria viver. Aristóteles acreditava que era preciso buscar a felicidade. Ele usava a palavra eudaimonia para explicar que felicidade era na verdade uma busca racional para se tornar um ser humano melhor, justo e bom. Mas ele também não era ingênuo e sabia que ser feliz dependia de alguma forma dos bens materiais, já que eles facilitam a prática de ações nobres.

SÊNECA

Sêneca era membro do estoicismo, escola que surgiu após a morte de Aristóteles com Zenão de Cítio. O estoicismo pregava o foco nas coisas que podemos mudar, e mais nada. Para os estoicos, por exemplo, o envelhecimento e a brevidade da vida eram inevitáveis. A única coisa que poderíamos fazer, portanto, seria aceitá-los. Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha, e viveu a maior parte da vida em Roma. Era conselheiro íntimo de Nero, mas não demorou para que o imperador acusasse o filósofo de traição. Nero ordenou que Sêneca se suicidasse. Como bom estoico, o filósofo não contestou a sentença absurda. Estava colocando em prática o princípio da ataraxia, um dos mais famosos conceitos da escola, que significa ausência de inquietação. A morte injusta era uma forma de provar que a única felicidade possível está na ausência do seu oposto: a dor.

ERA MEDIEVAL

Quando criança, Alexandre, o Grande, o maior conquistador do mundo antigo, teve Aristóteles como tutor. Dos 13 aos 16 anos, o futuro rei da Macedônia recebeu aulas de lógica, medicina, moral e arte, entre outros temas, do mestre da filosofia.

Em 323 a.C., Alexandre morreu aos 32 anos, e sua despedida marcou o fim do domínio cultural, político e filosófico da Grécia no mundo antigo. Sem o líder unificador, as cidades-Estado gregas, que antes cooperavam, voltaram a ser inimigas. A morte do general, que levou o domínio grego e os ensinamentos do tutor até onde se situa o Paquistão, enterrou também o legado de Platão e Aristóteles. Nos dois séculos seguintes, o Império Romano ascendeu, e os romanos não tinham tanto apreço pela filosofia grega. O que de fato cultivaram dos helênicos foi o estoicismo, que pregava uma conduta virtuosa e obediente às leis.

A influência da cultura romana no mundo foi forte o suficiente para deixar os pensadores gregos no esquecimento por alguns séculos. Em 313 d.C., o cristianismo ganhou força com o Edito de Milão, que decretou a liberdade religiosa em Roma. Dois séculos depois, com a queda do Império Romano, começou a era de total domínio da Igreja na Europa Ocidental, período que durou quase mil anos. A abordagem grega de filosofia como uma reflexão exclusivamente racional, independente dos credos, sumiu. Durante toda a Idade Média, os pensadores se concentram em temas religiosos, uma cruzada inaugurada por Santo Agostinho, o primeiro a fundir a doutrina cristã com abordagens da Grécia clássica. Esse esforço de unir a religião ao pensamento crítico foi a principal tarefa da escolástica, corrente que nasceu nos monastérios e buscava uma justificação racional para a crença em Deus. A Igreja controlava o processo de conhecimento na época e criou as primeiras universidades.

Mas isso tudo ocorria no Ocidente. Na mesma época, no Oriente, especialmente nas regiões que haviam pertencido ao mais célebre aluno de Aristóteles, Alexandre, a cultura grega clássica, não por acaso, continuava viva. Pensadores árabes e persas como Al-Farabi, Averróis e Avicena incorporam as ideias de Platão e Aristóteles, esquecidos na Europa medieval, à cultura islâmica do século 7 em diante. O mais curioso é que foi preciso a expansão muçulmana na Ásia, África e Espanha para levar os esquecidos filósofos gregos de volta ao Ocidente.

Por meio de fontes islâmicas, pensadores cristãos começaram a dar mais atenção às obras aristotélicas e platônicas e acharam pontos de compatibilidade entre o cristianismo e a filosofia clássica, que alcança seu ápice com Santo Anselmo, considerado o pai da escolástica, aquele que melhor encontrou um equilíbrio entre fé e razão.

SANTO AGOSTINHO

Nascido numa cidade pertencente ao que hoje é a Argélia, na época parte do Império Romano, Agostinho teve uma vida de esbanjamento e luxúria até os 32 anos. Embora admirasse os ermitões que iam estudar as leis de Deus, ele só foi se converter no ano de 386, quando lecionava em Milão. Influenciado por Ambrósio, bispo da cidade, o futuro santo teve uma revelação espiritual depois de ler um relato da vida de Santo Antão do Deserto. Antão era filho de ricos proprietários de terras e, como Agostinho, vivera seus primeiros anos de modo confortável e perdulário, mas, quando perdeu seus pais, decidiu doar tudo aos pobres e foi peregrinar pelo deserto, a exemplo de Jesus Cristo. Agostinho ficou tão tocado pela história que decidiu entrar para a Igreja e regressar à África, onde foi ordenado padre pouco depois.

Na filosofia, ele recuperou os pensamentos de Platão para conceber a ideia de um Deus que pertencia a uma realidade perfeita, atemporal e imaterial. Se hoje essa interpretação parece um tanto óbvia, certamente não era na época: o cristianismo era uma religião nova, que concorria com outras fés e ainda não havia firmado as bases de sua doutrina, incluindo uma interpretação sobre Deus. Antes de se filiar à Igreja, Agostinho foi seguidor da religião maniqueísta, que via o bem e o mal como as duas forças que regiam o Universo. Influenciado por seu passado, tentou explicar a existência do mal em um mundo regido por um Deus bom e onipresente. Até então, a Igreja via o homem quase como uma marionete de Deus, o que não explicava por que optamos por coisas erradas se estamos destinados a fazer tudo o que Ele quer. Agostinho inovou ao propor que Deus foi bondoso ao dar ao homem a escolha entre o bem e o mal. Assim, os homens bons podem se separar dos outros e merecer a felicidade eterna. Agostinho morreu em 430, quando Hipona estava sitiada pelos vândalos, uma tribo em constante luta contra o poderio de Roma. Eles conseguiram cruzar as muralhas após seu falecimento e incendiaram quase tudo – mas a catedral e a biblioteca deixadas por Agostinho ficaram intactas.

AL-FARABI

Pouco se sabe sobre a vida de Al-Farabi que, embora tenha escrito muito, abusou da modéstia ao fugir do registro da própria biografia. Um dos fundadores do movimento filosófico muçulmano na Idade Média, ele seria chamado por seus contemporâneos de o Segundo Professor – uma espécie de herdeiro de Aristóteles, que seria o primeiro. Al-Farabi marcou um novo passo na filosofia de seu tempo precisamente por ter recuperado as obras dos gregos clássicos, discutindo tanto os textos aristotélicos quanto os de Platão, que haviam caído no esquecimento na Europa medieval. Os numerosos escritos de Al-Farabi também deixaram um legado semântico que curiosamente resistiu na língua portuguesa: de seu nome deriva o termo “alfarrábio”, usado para designar um livro antigo.

AVICENA

Dedicado à lógica e à medicina, assessorou muitos príncipes persas, tanto para curar doenças quanto para dar conselhos. Embora se considerasse seguidor de Aristóteles, afastou-se dele a respeito da ideia aristotélica de que mente e corpo compõem uma coisa só. Avicena promoveu o pensamento dualista — a ideia recorrente de que a mente, ou alma, seria distinta do corpo. Ou seja, a alma permanece mesmo quando o corpo morre, algo que tentou explicar na parábola do “homem voador”: se eu ficasse flutuando sem tocar nem ver coisa alguma, poderia não saber que tenho um corpo, mas ainda assim saberia que existo. Quase 600 anos depois, Descartes recuperaria a ideia de que nossa existência é garantida pela consciência — ou, para o francês: “Penso, logo existo”.

AVERRÓIS

Como Avicena, buscou formas de conciliar o Islã com a obra de Aristóteles, cujos pensamentos eram considerados hereges no mundo muçulmano. Natural do califado Almóada, onde hoje está a Espanha, Averróis tinha entre seus leitores o próprio califa, Abu Ya’qub Yusuf. Com as costas quentes, o filósofo conseguiu relativa proteção para formular suas ideias. Para ele, o Alcorão só deveria ser lido de maneira literal pelos homens incultos — a elite esclarecida precisava entender que o livro sagrado não passava de uma versão poética da realidade. As ideias de Averróis levavam à conclusão de que as indagações filosóficas e a religião podiam caminhar juntas: se a leitura mais óbvia de um trecho do Alcorão entrasse em conflito com a leitura culta (feita em geral pelos filósofos), aquele preceito não deveria ser seguido ao pé da letra, mas interpretado como uma mera parábola.

SANTO ANSELMO

Anselmo nasceu em berço nobre: seus pais ostentavam parentesco com a nobre dinastia da Casa de Savoia, que oito séculos mais tarde lideraria a unificação da Itália e reinaria sobre o país até o fim oficial da monarquia, em 1946. Apesar dos antecedentes, ele optou pela vida religiosa. Desde que entrou num mosteiro, aos 20 anos, subiu vários degraus na Igreja: foi monge, prior e abade. Em 1093, já vivendo na Inglaterra, tornou-se arcebispo da Cantuária.

Seus trabalhos filosóficos buscavam comprovar a existência de Deus por meio de um debate racional. Anselmo estabeleceu o que Immanuel Kant chamaria de “prova ontológica” seis séculos mais tarde: um diálogo imaginário com alguém que negasse Deus, usando da lógica até o ponto em que não houvesse alternativas a não ser aceitar Sua existência. Para Anselmo, era óbvio que existe em nossa mente “um ser do qual não é possível conceber nada maior”. Se Deus existe, Ele é esse ser. Mas, para Anselmo, algo presente apenas em pensamento é menor do que algo que vive na realidade. O filósofo então argumentou: se não pode haver algo maior do que Deus, e Ele está em pensamento, também precisa existir na realidade. Finalmente, a razão comprovava a existência de Deus — pelo menos para o filósofo.

Anselmo seria criticado nos séculos seguintes, e os questionamentos costumavam partir da interrogação básica: qual a garantia de que uma coisa real é de fato maior do que algo que existe só em pensamento? A maior importância de seu pensamento foi ter buscado um equilíbrio entre fé e razão. Embora outros pensadores tenham feito isso antes, como Santo Agostinho, Anselmo costuma ser chamado de “pai da escolástica” pela importância da razão em sua doutrina. Para ele, a fé começa quando a razão termina. No que diz respeito à Igreja, as contribuições de Anselmo foram logo reconhecidas: sua canonização ocorreu poucas décadas após sua morte. Ganhou o título de santo por volta de 1163.

PEDRO ABELARDO

Em 1115, reconhecido como um filósofo arrojado de Paris, Abelardo era admirado por alunos que vinham do exterior para aprender com ele. Foi aí que conheceu Heloísa, e a história de amor entre eles acabou mais famosa do que seus postulados. Sobrinha de um cônego da Catedral de Notre-Dame, onde Abelardo lecionava, ela encantou o pensador com sua beleza e erudição. Os dois começaram um romance secreto que terminou trágico: Heloísa engravidou e seus parentes juraram vingança. Em uma noite, arrombaram a casa de Abelardo e castraram o filósofo conquistador. Desiludidos, ela virou freira, e ele, monge beneditino. Pouco se sabe sobre o destino do filho do casal, Astrolábio.

A filosofia de Abelardo buscou problematizar os “universais”, isto é, tudo o que podemos agrupar sob uma mesma palavra. Para ele, os universais são apenas conceitos que derivam e guardam semelhança com as coisas. Ao contrário de Platão, ele dizia que um termo como “carvalho” pouco tem a dizer sobre cada árvore desse tipo que existe na realidade. Também contribuiu para aprimorar o método escolástico, um passo essencial para os teólogos que viriam a seguir.

SÃO TOMÁS DE AQUINO

Tomás de Aquino já havia investido nove anos de sua vida escrevendo a Suma Teológica, um total de 512 questionamentos filosóficos, quando algo estranho aconteceu. Ele foi visto levitando diante de um crucifixo em seu convento de Nápoles. Em meio a uma oração, o próprio Cristo teria começado a falar com ele. Tomás nunca chegou a escrever sobre a experiência mística — nem escreveu mais coisa alguma. A suposta aparição fez o religioso considerar “uma ninharia” tudo o que fizera até ali, desistindo de formular novas perguntas. Ele viria a falecer apenas três meses depois, aos 49 anos. O futuro santo havia tentado conciliar sua fé com o raciocínio de Aristóteles para entender a origem do Universo – enquanto o grego afirmava que o Universo sempre existiu, a Bíblia dizia que Deus o havia criado. Para Aquino, a ideia aristotélica de o Universo não ter um início definido não impedia o Cosmos de ter sido feito por Deus. Em Seu infinito poder, Ele teria condições de criar um Universo eterno. O pensamento tomista sofreu altos e baixos até ser recuperado em 1879 pelo papa Leão 13, que o considerou uma das bases da filosofia cristã.

DUNS SCOTUS

Duns Scotus tem biografia rodeada de dúvidas. Os mistérios incluem sua morte: ele teria sido enterrado vivo, após entrar em coma por consequência de um derrame. Frei franciscano, nunca reuniu seus escritos em uma obra única, o que fez muitos deles se perderem. Destacou-se por sua oposição a Tomás de Aquino, que defendia que as qualidades dos homens eram meras analogias das qualidades de Deus — a bondade humana, por exemplo, não poderia ser idêntica à divina. Scotus dizia que os atributos têm o mesmo significado, diferenciando-se apenas em grau. A bondade de Deus é infinitamente maior, mas ainda é a mesma bondade.

PENSADOR OU SANTO?

Na Idade Média, filosofar com qualidade elevou muitos pensadores à categoria de santo. Mas os devotos de Duns Scotus ainda lutam para comprovar supostos milagres e vê-lo ao lado dos seus pares filósofos no topo da fé cristã. Seu processo de canonização atravessa sete séculos e é um dos mais longos da história: a beatificação, o terceiro dos quatro passos para ascender à condição de santo, veio somente em 1993, por obra de João Paulo 2º.

RENASCIMENTO

O Renascimento não é precisamente um período histórico, mas a síntese de um espírito novo que surgiu na Itália. Na filosofia, o movimento foi inaugurado por Dante, com a sua Divina Comédia, no início do século 14, mas foi a partir dos séculos 15 e 16 que os pensadores ampliaram a faxina para varrer a poeira medieval. Os renascentistas eram bons marqueteiros: usavam os termos “renovar”, “restituir a uma nova vida”, “fazer reviver” para marcar uma oposição clara à cultura da Idade Média, que julgavam um período de barbárie e escuridão. A história fez questão de acabar com essa propaganda enganosa — a Idade Média não foi só horror. O nome Renascimento, enfim, colou, mas o período marcou, na verdade, o parto de uma outra cultura, que colocou o homem e suas inquietações — e não mais o Deus dos medievais — de volta ao centro do mundo. Não por acaso, a fase também é chamada de humanismo. Nascia uma filosofia inteiramente secular, separada da Igreja.

Os renascentistas beberam na mesma fonte dos medievais, na filosofia grega. Platão e Aristóteles — sempre eles — foram a inspiração dos ideais antropocentristas. Platão foi amplamente recuperado na Itália renascentista que dominou o mundo cultural da época — a imprensa de Gutenberg se encarregou de espalhar as ideias renascentistas para o resto da Europa. Os humanistas colocaram em prática o uso da razão e da evidência empírica na investigação do mundo. Mas a coisa não era tão pé-no-chão assim. Uma das correntes do pensamento da época, o neoplatonismo, explorava a ideia de que o homem era parte da natureza e podia agir sobre ela por meio da magia e da astrologia. Outra corrente, mais realista, iniciou a defesa dos ideais republicanos contra o poderoso Império Germânico e contra os papas. O florentino Nicolau Maquiavel é seu primeiro representante. A liberdade política da antiga Grécia era exaltada como exemplo de participação social. A indignação contra o status quo levou a mudanças profundas e marcou a Reforma Protestante, que teve como resposta a Contra-Reforma e a Inquisição.

Os pensadores renascentistas escreviam bem à beça. As obras mais famosas da época são hoje mais conhecidas como peças literárias do que como tratados filosóficos. O Elogio à Loucura, de Erasmo de Roterdã, por exemplo, é considerado uma das sátiras mais brilhantes da literatura mundial. Montaigne, autor de Ensaios, é tido como o inventor do gênero. Apesar do entusiasmo marcado pelas grandes aventuras marítimas da época e pelo pulsante comércio que entupia a Europa de novidades vindas do Oriente e da América, sem esquecer da efervescência das artes, com Da Vinci, Botticelli e Michelângelo botando para quebrar, as obras mais famosas do campo filosófico são céticas e pessimistas. Para Maquiavel e Montaigne, por exemplo, não havia muita saída para a corrupção na política — uma interpretação tremendamente atual, diga-se.

DANTE ALIGHIERI

Dante é mais conhecido por sua obra poética do que por suas teorias filosóficas — um traço comum entre os pensadores renascentistas. O poeta-filósofo viveu entre a transição da Idade Média e do Renascimento, ou seja, um limbo entre a religiosidade extrema e o início do humanismo secular. Sua obra principal, A Divina Comédia, marca o início do movimento renascentista, que reuniu na Itália uma concentração inédita de artistas, intelectuais, filósofos e cientistas. A repercussão da Divina Comédia foi tão acachapante que ajudou a consolidar o dialeto de Florença como a base da língua italiana.

A obra narra uma viagem imaginária e póstuma de Dante. Do começo, quando se encontra em uma “selva negra”, Dante é guiado pelo pagão Virgílio e depois por Beatriz, sua musa, que o leva ao paraíso. No livro, o autor visita o céu, o inferno e o purgatório, encontrando personagens históricos pelo caminho. Apesar da temática religiosa, A Divina Comédia faz uma crítica à Igreja. O autor condena pontífices às trevas por considerar sua conduta imoral, uma das críticas que geraram revolta nos altos escalões eclesiásticos. Depois da morte de Dante, seus restos mortais foram procurados para que pudessem queimá-lo como herege — ainda que depois de morto. Mas a importância do livro resistiu aos ataques e até hoje é usada por padres como referência teórica. A obra se chamava originalmente apenas Comédia. O adjetivo foi incorporado por Giovanni Boccaccio, um poeta e crítico literário italiano do século 14, especializado na obra do filósofo.

Dante também ocupou cargos importantes no governo florentino, o que lhe rendeu inimizades políticas. Exilou-se em Ravena, após a vitória dos seus inimigos, apoiados pelo papa Bonifácio 7º. Escreveu Monarquia, obra menos conhecida, em que defendia a separação entre funções do Império e da Igreja. Para Dante, o imperador teria poder executivo, e o papa atuaria como mestre espiritual. E os dois precisam se respeitar.

Nas horas vagas, era um romântico incurável. Era membro do grupo secreto “Os fiéis do amor”: trovadores líricos que idealizavam a figura feminina.

THOMAS MORE

Formado em Direito por Oxford, Thomas More teve uma carreira de sucesso como braço direito de Henrique 8º. Mas, apesar de viver entre a nobreza, escreveu uma obra-prima protossocialista. Seu livro mais famoso, Utopia, narra a vida em uma ilha imaginária onde as pessoas trabalhavam pouco e tudo era compartilhado. Fez ataques à monarquia, que garantia seu ganha-pão. Inspirou-se na República, de Platão, e tornou a palavra “utopia” (um lugar ou situação ideal, mas de difícil realização) parte da linguagem comum. Curiosamente, as críticas contra o patrão em Utopia não lhe causaram problemas.

Ele só se indispôs com o chefe monarca quando Henrique 8º se voltou contra a Igreja Católica e fundou sua própria doutrina, o Anglicanismo. Sua recusa em aceitar a manobra do rei lhe rendeu uma condenação à morte, na Torre de Londres, em 1535. Quatrocentos anos depois, em 1935, ele foi canonizado por ter pago com a própria vida pela fidelidade ao catolicismo. O pensador era muito amigo de Erasmo de Roterdã, que dedicou ao camarada a sua obra mais conhecida, o Elogio da Loucura. More foi uma espécie de discípulo de Erasmo, apesar do amigo ter sido um duro crítico do cristianismo.

ERASMO DE ROTERDÃ

Um monge que criticou a doutrina da Igreja, detestava morar no convento e acreditava que o mundo material não era tão ruim assim. Esse era o filósofo e escritor holandês Erasmo de Roterdã. Filho bastardo de um padre, Erasmo também se formou em teologia, mas defendia uma educação longe dos clérigos. Louco?

Talvez. Mas ele próprio dizia que a loucura era uma das virtudes que garantiram a felicidade. Erasmo via na loucura uma parte essencial do homem, o atributo que pode nos trazer as alegrias mais sinceras. Como bom discípulo do desvario, ele criou em sete dias sua obra mais célebre, Elogio da Loucura, onde a própria insanidade é a narradora da história.

No livro, dirigiu críticas mordazes a doutrinas e valores hipócritas da Igreja, que já não se mostrava tão santa assim. Foi um dos primeiros autores a enfrentar os dogmas que guiavam o poder medieval, propondo uma educação livre do controle religioso. Fora da Itália, o teólogo era considerado um dos grandes líderes do pensamento humanista, movimento que pregava o homem como dono de sua própria vida. As ideias renascentistas de Erasmo inspiraram Lutero na Reforma Protestante. Porém, o monge holandês não se juntou ao movimento. Guiado por um espírito independente, preferia não se filiar a nenhum extremo. Para externar sua posição, criou o sermão Sobre o Livre Arbítrio, indo contra uma das ideias centrais de Lutero. Para Erasmo, apesar do homem ter o poder de fazer suas escolhas livremente, ele nunca encontraria a salvação sem a graça divina. Ele defendia um retorno às crenças sinceras, um contato com Deus sem intermédio de missas, padres ou confessionários.

MAQUIAVEL

Maquiavel escreveu O Príncipe, uma obra-prima da política, mas não se deu bem na vida pública. Depois de 14 anos trabalhando como secretário na Segunda Chancelaria de Florença, perdeu seu cargo quando a família Médici, sua inimiga, voltou ao poder em 1512. Foi exonerado e exilado em sua fazenda. Acabou a vida longe da política.

No livro, cujas fortes ideias forjaram o adjetivo “maquiavélico” para definir um indivíduo que busca o poder sem escrúpulos, o historiador e poeta resolveu romper com a tradição idealista, que remonta a Platão, e mostrar como as coisas funcionam na prática. Inspirou-se em César Bórgia, que passou pela política, Igreja e Exército sempre com perfil pragmático. Para Maquiavel, o líder ideal deveria ser perspicaz como a raposa e feroz como o leão. Ele poderia fazer inimigos e promover punições mais duras desde que estivesse em busca de um bem maior. Mas o líder defendido por Maquiavel não podia ser um louco desvairado: tinha de agir com sabedoria. O autor nunca pregou planos diabólicos, como assassinatos políticos, ou artimanhas que lhe classificariam como maquiavélico. Foram os leitores que interpretaram a receita de Maquiavel como uma espécie de passe livre para a maldade. A clássica frase “Os fins justificam os meios” resume bem sua ideia, mas não foi escrita pelo autor — é um dito popular.

MONTAIGNE

Cético, este filósofo do século 16 acreditava que a verdade é inacessível e flutuante. Sua obra-prima, Ensaios, foi escrita quando a Renascença estava na sua última fase, e o otimismo já não era mais o mesmo. Por isso, sua produção era repleta de desconfiança sobre tudo, e o livro foi tão influente no meio literário que acabou fundando um gênero: o ensaio.

Montaigne falava de canibais, religião e amor, mas unia temas aleatórios com fluência e reflexões sobre o homem. Nas passagens sobre educação, por exemplo, era contra a decoreba. Criticou o exibicionismo intelectual e defendia que alunos soubessem articular os conhecimentos e tirar suas próprias conclusões. Dizia que não devíamos dar bola para a opinião dos outros e que a busca pela fama corrompe o ser humano, pensamento que ia na contramão da cultura da época. Montaigne era um playboy do século 16. Foi alfabetizado em latim, graduou-se em Direito e jogava dinheiro pela janela. Apesar do apreço pela vida louca, chegou a ser prefeito de Bordeaux por duas vezes, entre 1580 e 1590. Teve vários affairs, mas não se envolveu seriamente com nenhuma mulher. Seu único amor foi La Boiétie, seu melhor amigo, com quem teve uma “divina ligação”, compartilhada “até o fundo das entranhas”, em suas próprias palavras. Foi a morte prematura do companheiro que o deprimiu e o levou a escrever seus ensaios.

GIORDANO BRUNO

Abriu um novo horizonte de liberdade e evolução científica, mas foi perseguido pela Inquisição e acabou na fogueira. O pensador acreditava que o mundo era um grande animal, onde todas as coisas (todas mesmo) possuem alma. Teólogo, filósofo e escritor, Bruno também era astrônomo. Inspirado por Copérnico, defendeu a infinitude do Universo e lançou a possibilidade de que todas as estrelas poderiam ter seu próprio sistema solar — hipótese que só seria comprovada no século 21. A ideia batia de frente com a crença cristã de que os humanos são criações únicas, feitas à imagem do Criador. Para sublinhar seu nome na lista negra da Igreja, Bruno retomou conceitos pagãos, afirmando que Deus faz parte do Universo, presente em todos os cantos, e não uma entidade com cadeira cativa num único lugar. Para ele, a energia presente em todas as coisas não se perde após a morte, mas se transforma.

CAMPANELLA

Foi o filósofo que encerrou o período renascentista. Em sua obra mais famosa, A Cidade do Sol, escreveu sobre uma sociedade comunitária, onde todo o conhecimento era compartilhado e não existia nem propriedade privada nem família. Campanella acreditava que as novas gerações poderiam ser melhoradas por cruzamentos. Por isso, a procriação era planejada. Gordos deveriam procriar com mulheres magras em busca de um equilíbrio. Campanella fundamentou sua obra aliando as leis naturais e a fé cristã. Para ele, o mundo é um grande organismo, onde tudo é vivo e sensível.

ERA MODERNA

Depois do Renascimento ter abalado o monopólio da Igreja sobre o pensamento, cultura e política europeia, o século 17 marca a vitória definitiva da razão e da ciência sobre a religião — um movimento batizado de Iluminismo. A Europa, que antes era um continente unificado pelo poder eclesiástico, divide-se em nações poderosas. Grã-Bretanha, França, Espanha, Portugal e Holanda consolidam seu poderio econômico com colônias ao redor do mundo e, em cada país, surge uma próspera classe média urbana.

Aos filósofos modernos coube a iniciativa de integrar o raciocínio filosófico com o científico, em alta depois que as grandes navegações — e os grandes lucros provenientes do comércio com as Índias — comprovaram noções negadas pelo poder eclesiástico, como o fato de a Terra ser redonda. Os britânicos Thomas Hobbes e Francis Bacon foram pioneiros nessa fase, que inaugura o período conhecido como a Idade da Razão. Não por acaso, vários desses filósofos são matemáticos de formação, como René Descartes, tido como o fundador do pensamento moderno. Para ele, o raciocínio matemático é o melhor modelo para conhecer o mundo. A pergunta “o que posso conhecer?” marcou a crença de que a sabedoria vem da razão, pensamento que dominaria o continente europeu no século seguinte. Na Grã-Bretanha, porém, uma tradição filosófica bem diferente ganhou corpo. Inspirado em Francis Bacon, John Locke chegou à conclusão de que não é a razão, mas a experiência, a fonte de conhecimento sobre o mundo.

Apesar da divisão entre o racionalismo continental e o empirismo britânico, havia algo em comum: a importância do ser humano, um ser dotado de razão e capaz de experimentar o mundo. Questões como a natureza do Universo, que até então dominavam o pensamento, saíram da filosofia e entraram para a ciência, a cargo de figuras como Isaac Newton. À filosofia, restaram perguntas de ordem epistemológica, existencial e política: “como podemos conhecer o que conhecemos?”, “qual é a essência do eu?” e “o que ocorrerá no mundo se a monarquia cair?”. Dúvidas que lançaram bases para um sério questionamento sobre o status quo e para a consolidação do ideal democrático nascente. A grande mudança intelectual dos modernos foi considerar as coisas externas (a natureza, a política etc) como representações ou conceitos. Isto é, tudo o que pode ser conhecido deve ser transformado pelo homem em um conceito distinto e demonstrável, permitindo ao homem interpretá-lo a seu bel prazer. Na convicção moderna, a razão governa emoções, vontades e define o melhor sistema político. Mas toda essa certeza chega ao fim com Immanuel Kant, que dá uma guinada no pensamento filosófico. Com a Crítica da Razão Pura, Kant coloca um freio no afã racionalista ao demonstrar como e por que nossa racionalidade não é absoluta (ou não pode responder a tudo).

DESCARTES

Aos 24 anos de idade, René Descartes se alistou no Exército holandês, passando a integrar as tropas de Maurício de Nassau. Não seria sua única experiência bélica: o jovem que depois ficaria famoso por seu legado à matemática e à filosofia ainda pegou em armas pelas legiões da Bavária, e chegou a participar de uma batalha nos arredores de Praga, em 1620, durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). O gênio nascido na França enveredou para a carreira militar tentando provar a si mesmo que não tinha os pulmões fracos. Quando veio ao mundo, os médicos garantiram que seus dias estavam contados: a mãe morreu de tuberculose pouco após o parto, e o pequeno René dificilmente teria um destino muito diferente. Mas seu pai, Joachim, contratou uma ama de leite e garantiu que o filho passasse os primeiros anos em casa, longe do contato com outras crianças — e, principalmente, suas doenças.

Deu certo. Descartes chegou à idade adulta e pôde até virar soldado, mas não tinha jeito para a trincheira. Introspectivo e com gosto pela leitura, logo conseguiu ser dispensado para se dedicar em tempo integral àquilo que já vinha fazendo nas horas vagas — desenvolver ideias revolucionárias, que reuniria mais tarde no Discurso do Método, sua obra-prima que trata da prática científica, do pensamento humano e até mesmo de Deus, entre outras questões. Descartes ganhou fama por criar e emprestar o nome ao sistema de coordenadas cartesiano, que abriu caminho para o surgimento da geometria analítica — e dos pesadelos de muitos estudantes do ensino médio pelo mundo afora. Longe dos números, fundou o pensamento racionalista, influenciando gerações de estudiosos e ganhando a alcunha de pai da filosofia moderna.

Conforme a doutrina cartesiana, é a razão, e não a experiência empírica, que deve ser a fonte do conhecimento — assim, nós entendemos o que é real e o que não é por meio da dedução, e não dos cinco sentidos. Com a conhecida frase “penso, logo existo”, Descartes resumiu o conceito de que nossa própria existência seria comprovada pelo fato de que podemos duvidar e pensar a respeito dela. Por extensão, ele concluía que a existência de Deus podia ser comprovada pelo método racionalista: o simples fato de podermos ter a ideia de perfeição e de infinito, sendo imperfeitos e finitos, garantiria a verdade dessa ideia. E, se Deus existe, também existe o mundo sustentado por Ele.

Por ironia, os dias do filósofo francês foram abreviados justamente por conta de seus pulmões — quando ele acreditava já estar a salvo do problema. Em setembro de 1649, Descartes foi convidado a lecionar para a rainha Cristina, da Suécia, numa maratona de aulas que começavam às cinco da manhã. Abatido pelo congelante inverno escandinavo, o pensador contraiu uma pneumonia e faleceu apenas seis meses depois.

ESPINOSA

“Maldito ele seja de dia e maldito seja de noite. Maldito seja quando se deita e maldito seja ele quando se levantar. Maldito seja quando sair, e maldito seja quando regressa”. Com essas palavras iradas e algumas outras a mais, a Sinagoga de Amsterdã anunciou para quem quisesse ler a condenação do “herege” Baruch de Espinosa, em 27 de julho de 1656.

Ser expulso da religião não foi sequer o maior problema de Espinosa por aqueles dias. Envergonhados com a situação, seus parentes o deserdaram e o impediram de tomar parte nos negócios da família. O filósofo havia questionado a forma como víamos Deus e subitamente se viu sem o amparo da comunidade judaica e de seu lar. Para se sustentar, teve de arranjar emprego como lustrador de lentes, um trabalho que garantiu a renda, mas acabou debilitando sua saúde: Espinosa morreria aos 44 anos, provavelmente de uma silicose causada pelo pó de vidro que respirou em duas décadas de serviço. Não que tenham faltado oportunidades para tentar outra carreira. A Holanda vivia uma efervescência econômica, e Espinosa sempre esteve cercado por contatos influentes. Recebeu até mesmo um convite para lecionar na prestigiada Universidade de Heidelberg, mas se viu forçado a recusá-lo por conta da orientação para que não ensinasse teorias contrárias à religião.

De onde vinha tanta convicção? Muitos tacharam Espinosa de ateu, e seus textos chegaram a entrar no famigerado Index, a lista de livros proibidos para católicos. O filósofo não negava a existência de Deus, mas O enxergava como uma figura muito mais impessoal. Para Espinosa, Deus e a Natureza eram dois nomes para a mesma “substância” que fazia o Universo, e a vontade divina se manifestava nas leis naturais. Um conceito inovador que, de certa forma, obrigava a buscar explicações racionais para tudo, negando milagres, por exemplo. Em seu Tratado Teológico-Político, publicado em 1665 (sem assinatura, por medo de represálias), o filósofo dizia que o supersticioso era alguém incapaz de compreender essas leis do Universo – e que precisava criar explicações simples para aquilo que não conseguia entender. Seu exemplo fundamental: a ideia de um Deus raivoso, que precisava ser cultuado e agradado, não passaria de uma superstição. Espinosa defendia que essa imagem de Deus era conveniente para a Igreja, que podia prometer o perdão e, desta forma, ganhar poder. Ou seja, a superstição ajudaria a criar regimes autoritários baseados na religião. Esse pensamento virou uma bandeira cada vez mais forte nos séculos seguintes: a separação entre a Igreja e o Estado.

THOMAS HOBBES

Hobbes viveu em tempos conturbados para a coroa de seu país, e suas ideias tinham muito a ver com o clima de incertezas que marcou aquela época. Nascido prematuramente após sua mãe se assustar com a notícia de que a Armada Espanhola estava a ponto de invadir a Grã-Bretanha, o pensador seguiu tendo a vida influenciada pelos acontecimentos políticos. Ferrenho defensor do rei e com contatos na nobreza, chegaria a se exilar em Paris quando uma guerra civil balançou as ilhas britânicas entre 1642 e 1651.

Nessa época, o movimento liberal, que defendia a redução do poder da realeza, vinha ganhando cada vez mais força. Uma série de conflitos se desenhou no horizonte, culminando anos mais tarde na Revolução Gloriosa e na assinatura da Bill of Rights, que na prática encerrou o absolutismo inglês. Contrariando outros filósofos políticos e o anseio revolucionário, acreditava que o homem não possui uma disposição natural para a vida em sociedade: o autor de Leviatã sustentava que a natureza humana é regida pelo egoísmo e pela autopreservação.

Esse instinto abriria caminho para a violência contra o próximo, ao mesmo tempo em que nos obrigaria a buscar uma “paz” comum que nos dê segurança, representada pelo contrato social. Hobbes era pessimista quanto à capacidade de mantermos essa paz sem uma liderança forte e centralizadora. Além do mais, temia que o excesso de opiniões divergentes pudesse atrapalhar a sociedade. Para ele, sempre haveria quem tentasse provocar conflitos para tomar o poder para si, motivo pelo qual cada homem deveria submeter sua vontade a um déspota. É enganoso pensar que o fim do absolutismo tenha derrubado as ideias de Hobbes. Seu pensamento era inovador: o rei não devia seu poder a um desígnio divino, mas a uma necessidade social. Mesmo se opondo à ideia da democracia, Hobbes pregava a igualdade entre os homens, e o seu líder deveria ser um representante legítimo. Desse modo, o respeito ao déspota só deveria existir até o momento em que ele conseguisse assegurar a paz e a prosperidade almejadas por seu povo.

JOHN LOCKE

Graças a uma infecção de fígado, o Ocidente ganhou um dos seus maiores filósofos políticos. Não no fígado dele mesmo, que fique claro: Locke era médico por formação e boa parte do que escreveu surgiu em conversas com um dos seus pacientes mais ilustres. Em 1666, Anthony Cooper, sofrendo de dores constantes, buscou ajuda em Oxford, onde se impressionou com o tratamento de Locke e o convenceu a se tornar seu médico particular. Ocorre que Cooper também era o Conde de Shaftesbury, um dos fundadores do Partido Whig, de tendência liberal, que buscava reduzir o poder da nobreza na Inglaterra.

As ideias do paciente só aprofundaram um gosto que Locke trazia do passado: o de refletir sobre o homem e a sociedade. Desde a escola, tinha demonstrado interesse em estudar os filósofos do seu tempo, preferindo Descartes aos gregos clássicos, e decidiu cada vez mais se aproximar da filosofia. Apesar de apreciar o pensamento cartesiano, Locke se tornaria um dos maiores símbolos da corrente oposta ao racionalismo descrito pelo francês. O pensador britânico foi um notável advogado do empirismo, criando a teoria da “tábula rasa”: o homem nasce como uma folha em branco, sem qualquer ideia inata, e seu conhecimento é definido apenas pelas experiências obtidas por meio dos sentidos. Mas foram seus escritos políticos os que tiveram maior aplicação prática. Seguindo o pensamento de Hobbes, ele apoiou o conceito de que havia um “contrato social” na base de cada Estado. Assim, o poder de um homem não podia derivar de Deus, como apregoavam os reis da época. Locke, porém, discordava de Hobbes quanto à necessidade de um líder absolutista para manter esse pacto social, acreditando que os poderes deveriam ser separados e limitados. Para ele, o Estado tinha a missão de proteger direitos fundamentais do homem, como a vida, a propriedade e a liberdade. A autoridade do governo deveria ser conferida por seus governados, que teriam o direito de modificar seus representantes e até mesmo de derrubá-los caso seus direitos estivessem sendo violados.

FRANCIS BACON

A aspiração estava longe de ser modesta: Francis Bacon sonhava, simplesmente, com uma reforma completa da ciência e da filosofia que eram aceitas em seu tempo. Ao seu projeto de escrever um novo tratado sobre tudo o que ali estava, deu o poderoso título de Grande Instauração.

No entanto, Bacon tinha um problema sério: a falta de tempo para executar um plano tão grandioso. Sua ambição não era só intelectual, mas também política. Eleito deputado para o Parlamento Britânico com apenas 23 anos, o inglês se dedicou à política até pouco antes de morrer, acumulando cargos importantes sob o reinado de Jaime 1º. O pensador só se afastou da vida pública em 1621, quando já havia sido nomeado Grande Chanceler. Sua saída não foi voluntária — acusado de corrupção, foi expulso do Parlamento e perdeu todos os postos que havia conseguido até ali. Mesmo tendo escrito muito menos do que gostaria, Francis Bacon deixou um legado importante: sugerindo que devemos seguir um rigoroso método experimental para atingir o conhecimento, ele inaugurou a tradição empirista.

Bacon dizia que devemos avaliar as circunstâncias em que um fenômeno ocorre (ou não ocorre), detalhando seus casos particulares para relacionar um ao outro. Esse pensamento por “indução” levaria ao conhecimento que, para o filósofo, era o caminho para o homem passar a usar as forças da natureza a seu favor. Porque, no fim das contas, “saber é poder”.

MONTESQUIEU

Charles-Louis Secondat podia ter ficado tranquilo em seu castelo, tomando o bom vinho da família e curtindo a herança deixada pelo tio. Com apenas 27 anos, o jurista era o líder dos Secondat, dono de uma verdadeira fortuna e títulos de nobreza. Além de presidir a Câmara de Bordeaux, o jovem também passou a ser o Barão de Montesquieu, alcunha pela qual ficou mais conhecido.

Montesquieu, porém, já estava influenciado pelos ideais iluministas, que também acabaria ajudando a construir. Em pouco tempo, ganhou fama como um crítico voraz dos costumes da Coroa francesa e da Igreja. O pensador se tornou um admirador do sistema político da Inglaterra, país que àquela altura já havia tirado o poder do rei e transferido para o Parlamento. Com pitadas de ironia, os textos sarcásticos de Montesquieu seriam fundamentais para formar os conceitos da futura Revolução Francesa.

Em diversas viagens pela Europa, o filósofo havia chegado à conclusão de que os governos do continente costumavam se dividir entre repúblicas e monarquias — que podiam ser autoritárias ou não. Para ele, a forma mais eficaz de evitar que o poder fosse exercido por um tirano seria diluí-lo em três braços: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Essa proposta revolucionária se tornaria a organização básica da maioria das nações contemporâneas.

LEIBNIZ

Quando você compartilha vídeos engraçadinhos de gatos ou destrói doces na tela do celular, provavelmente nem desconfia que tudo isso começou lá no século 17. Falecido há quase 400 anos, Leibniz está por trás do sistema numérico binário, que mais tarde seria convertido em bytes e usado na programação dos computadores que usamos hoje.

Assim como Descartes, Leibniz ficou famoso por seus estudos matemáticos, mas também contribuiu para o pensamento filosófico. Seu brilhantismo foi tão precoce que Leibniz chegou a ter um pedido de doutorado recusado, em 1666. Aos 20 anos, o pensador foi considerado “jovem demais” pela Universidade de Leipzig, mas não pela de Altdorf, para onde se mudou e conseguiu o título ainda naquele ano. O pensador costuma ser lembrado como um otimista. Segundo seus escritos, nosso mundo é o melhor entre os mundos possíveis, pois foi criado à semelhança de um organismo perfeito, Deus, que segue uma lógica racional. Em busca de uma “matemática divina” capaz de explicar tudo, Leibniz disse que Deus escolhe sempre os caminhos que permitam haver o máximo de bem no mundo. Seguindo a teleologia de Aristóteles, que procura analisar os propósitos de tudo o que acontece, Leibniz defendeu que Deus permite a existência do mal e do sofrimento como estágios para um bem superior – como a sensação de alívio após aquela fase particularmente difícil do viciante Candy Crush.

Explica o porquê?

O racionalista Leibniz formulou um princípio fundamental para o desenvolvimento da ciência que explica por que nunca paramos de buscar respostas para as questões existenciais. É chamado de o Princípio da Razão Suficiente, formulado pelo filósofo-matemático no século 17:

1. Segundo o princípio, há explicação para tudo. Isto é, para cada verdade, deve haver sempre uma explicação de ela ser assim e não de outra forma. Por que existe alguma coisa em vez de nada? Fazemos instintivamente esse tipo de pergunta.

2. Em Por que o Mundo Existe?, o filósofo e jornalista Jim Holt usa o Princípio da Razão Suficiente para mostrar que, se a premissa está certa, então deve haver uma explicação de por que o mundo existe — quer saibamos ou não.

3. Mesmo contestado, o Princípio de Leibniz é usado por nós o tempo todo, o que pode significar que buscar uma explicação para a origem das coisas e dos acontecimentos seja inerente à racionalidade humana.

BERKELEY

Ao longo dos séculos 17 e 18, muitos filósofos se dedicaram a discutir a fonte de nossos conhecimentos, criando duas correntes: o empirismo e o racionalismo. Enquanto os racionalistas asseguravam que já havia ideias inatas antes mesmo de qualquer experiência, os empiristas preferiam acreditar que todo o conhecimento vinha somente a partir daquilo que vemos, ouvimos, tocamos, provamos ou sentimos. Mas, para Berkeley, um bispo anglicano de um povoado irlandês, havia um problema a ser resolvido antes disso: os filósofos partiam da premissa de que aquilo que existe no mundo é composto por matéria. Berkeley passou a questionar se havia matéria, criando o “imaterialismo”, que levou o empirismo às últimas consequências: se a ideia que fazemos de um objeto depende dos cinco sentidos, dizia o filósofo, nada garante a existência daquilo que não podemos perceber. Apesar de submeter a existência da matéria ao fato de ser ou não percebida pelo homem, o bispo evitava entrar em conflito com a sua fé. Para ele, havia uma força superior definindo o que podemos ou não sentir: “quando abro meus olhos, não está em meu poder escolher o que eu quero ver ou não”, escreveu. “As ideias impressas em meus sentidos não são criadas por minha vontade. Assim, existe outra Vontade ou Espírito que as produz”.

DAVID HUME

Nascido em Edimburgo, Hume ingressou na universidade local com apenas 12 anos e foi arrebatado pelos debates filosóficos de seu tempo. Na época, os grandes pensadores europeus se debruçavam sobre a origem do conhecimento humano. Hume sustentava que tudo o que sabemos vem das percepções ou das “ideias” (formadas a partir delas). O filósofo, porém, identificou um problema nessa divisão: nem todas as nossas ideias são justificadas por impressões que já tivemos. De onde elas vêm? Opositor ferrenho da escola racionalista, Hume negou a explicação de que essas ideias fossem inatas ao ser humano. Concluiu que parte dos nossos raciocínios se baseia em acontecimentos que nossa experiência define como “prováveis”. Por exemplo: dizer que um objeto cairá quando for solto no ar, que o sol vai nascer amanhã, ou que a chuva vai encharcar uma blusa no varal são previsões baseadas naquilo que já vivenciamos. Mesmo que ainda não tenhamos visto o próximo nascer do sol, podemos supor que ele acontecerá, pois foi o que aprendemos com as nossas experiências passadas. Embora não houvesse como ter certeza de que as leis da natureza seguiriam sempre as mesmas – e que a alvorada iria continuar vindo -, o hábito ainda deveria ser o melhor guia para a vida.

THOMAS REID

Thomas Reid mantinha uma respeitosa discordância em relação a David Hume. Um lia os textos do outro e ambos tinham sérias críticas ao modo de pensar do colega. Reid descendia de uma linhagem de reverendos presbiterianos e tornou-se um pastor marcado por suas pregações emotivas. Quando não estava no púlpito, tratava de justificar filosoficamente aquilo que chamava de instintos “do vulgar” — isto é, do homem comum. Diferentemente de Hume, que se mantinha cético quanto às causas de determinados eventos e à nossa capacidade de interpretá-los sem uma experiência prévia, Reid advogava a favor do que denominou de “o senso comum”. Para ele, nossos instintos são inatos e pertencem à natureza humana, seguindo o modo como fomos construídos para nos preservarmos frente aos desafios do mundo: o senso comum seria o responsável por sabermos de antemão que não é saudável pular de abismos ou provocar animais selvagens, por exemplo. Reid dizia ser possível manter as crenças e as ações afastadas daquilo que o senso comum recomenda, mas isso significaria uma negação dos comportamentos naturais — e teria o custo de gerar uma série de conflitos tanto em nosso corpo quanto na mente.

Assim como pular de um abismo seria pouco recomendável, formular ideias contrárias aos conhecimentos naturais acabaria provocando frustração e sofrimento intelectual. Ironicamente, um episódio da história pessoal do colega Hume podia ser usado para fortalecer o argumento de Reid — de que contrariar esses comportamentos, mesmo em pensamento, realmente tinha um custo tão alto, Hume acabou sentindo na pele: enquanto formulava seus textos para desconstruir a ideia de conhecimento adquirido via senso comum, ele sofreu um colapso nervoso e levou quase cinco anos para se recuperar.

VOLTAIRE

Corria o ano de 1717 e o reino da França estava sem seu monarca. O extravagante Luís 14 tinha morrido dois anos antes, e o trono ficou vago: seu neto, o futuro Luís 15, ainda era jovem demais para assumir e tinha de esperar a maioridade para ser coroado. O poder passou a ser exercido por um regente, e um ácido escritor parisiense publicou alguns versos satirizando o governo provisório. Mas a arbitrariedade continuava: François-Marie Arouet acabou perseguido e preso na temida fortaleza da Bastilha. Quando recuperou a liberdade, Arouet já havia adotado o pseudônimo que logo ficaria famoso: Voltaire.

Os 11 meses passados na cadeia não foram perdidos. Voltaire dedicou as horas de tédio a trabalhar em Édipo, sua adaptação da obra de Sófocles que viraria um sucesso de crítica nos palcos de Paris. Foi o sinal de que a carreira de escritor e dramaturgo podia ir adiante, apesar do descontentamento que causava nas autoridades. Desde cedo, o pequeno François-Marie apostou na literatura. Escreveu mais de 2 mil livros e panfletos políticos. As opiniões fortes provocaram várias prisões e exílios: em 1726, parou outra vez na Bastilha após brigar com um nobre. Temendo ficar na prisão por tempo indefinido, propôs às autoridades um desterro na Inglaterra como pena alternativa. O período nas ilhas britânicas o colocou em contato com as ideias de John Locke. Voltaire já era um crítico dos reis arbitrários que governavam a França e também da usura da Igreja. Agora, cada vez mais defenderia a liberdade de expressão, o direito a um julgamento justo e a tolerância religiosa — além da separação entre o governo e a Igreja.

Voltaire foi um dos impulsores do chamado “despotismo esclarecido”: sem se opor diretamente aos reis, sustentava que o monarca precisava se cercar de pensadores para governar segundo a razão. Enquanto esteve exilado, chegou a atuar como conselheiro de Frederico 2º, rei da Prússia. Retornou a Paris após duas décadas para a estreia do que viria a ser sua última peça. Morreu logo depois, mas suas ideias duraram o bastante para estar na linha de frente da Revolução Francesa, 11 anos mais tarde.

JEAN-JACQUES ROUSSEAU

Jean-Jacques Rousseau entrou para a história por um caminho diferente daquele que tinha imaginado. Aos 29 anos de idade, bateu às portas da Academia de Ciências de Paris disposto a ser reconhecido como um gênio: apresentou um inovador sistema de notação musical, que pretendia mudar para sempre a forma como as partituras eram escritas. A ideia naufragou quando os especialistas consideraram o método complicado demais.

O que poderia ter sido um revés definitivo acabou abrindo outra oportunidade: Rousseau impressionou Denis Diderot, um dos idealizadores da primeira Enciclopédia, que lhe encomendou alguns artigos sobre música para incluir na coleção. A amizade com os enciclopedistas despertaria em Rousseau o interesse pela filosofia, além de colocá-lo em contato com livros que moldaram seu pensamento, sobretudo de autores ingleses. Rousseau concorda com Hobbes e Locke quanto à existência de um “estado natural” para a humanidade, que teria evoluído para um estágio de civilização a partir do chamado “contrato social”. Mas, enquanto Hobbes escrevia que o homem é egoísta e selvagem, Rousseau defende o inverso: o homem é bom e livre por natureza, com virtudes inatas que são corrompidas pelas necessidades da vida em sociedade.

Essa ideia está explícita nas primeiras linhas de sua obra mais famosa, Do Contrato Social: “O homem nasceu livre, e por toda a parte está acorrentado. Aquele que julga ser senhor dos demais é, de todos, o maior escravo”. O afastamento do estado natural teria começado quando um homem decidiu tomar um pedaço de terra, criando a noção de propriedade privada. A partir daí, a única maneira de manter o controle era por meio de leis, que restringiam a liberdade natural. Com ideais de uma república democrática, ele propôs a substituição do Estado mantido nas mãos de reis e da Igreja por um governo formado por cidadãos. Esse grupo de eleitos também seria responsável por elaborar as leis de acordo com a “vontade geral”.

Os conceitos de Rousseau não entusiasmaram apenas os revolucionários franceses — no século seguinte, seus textos sobre injustiça, desigualdade e opressão seriam uma das principais influências do pensamento político de Karl Marx.

IMMANUEL KANT

Diferentemente dos grandes pensadores da sua época, forjados nas agitadas capitais europeias, Immanuel Kant jamais saiu de sua cidade natal. Sem nunca se casar ou ter filhos, ele cresceu, estudou e lecionou na próspera cidade portuária de Königsberg, então parte do reino germânico da Prússia (atual Kaliningrado, na Rússia). O ar cosmopolita conferido pelo porto ajudou Kant a não ficar isolado e, mesmo sem ter realizado viagens ao estrangeiro, suas ideias venceram mares e fronteiras, tornando-o famoso ainda em vida.

Kant se diferenciou dos filósofos anteriores por propor de forma convincente um modelo que combinasse o racionalismo e o empirismo, o conhecimento adquirido pela experiência. Em sua teoria do “idealismo transcendental”, ambos são necessários para compreender o mundo. O pensador argumentava que algo deve existir dentro do espaço e do tempo para ser percebido pelos sentidos. Ao mesmo tempo, ele diz que não seria possível estudar o espaço se antes disso já não houvesse um conhecimento prévio sobre ele. Tome esta revista como exemplo. Sem a “sensibilidade”, que é a capacidade de sentir as coisas e ter intuições ao longo da vida, você sequer saberia que existem objetos como revistas. Mas, sem o “entendimento”, que permite pensar sobre essas coisas e criar conceitos, você também não saberia que o que está tocando e vendo é — afinal — uma revista. O filósofo também se debruçou sobre como o homem deveria proceder em relação aos seus semelhantes para obter a felicidade. Kant postulou o que chamou de “imperativo categórico”: a necessidade de agir de modo que a ação possa se tornar o princípio de uma lei válida para qualquer pessoa.

Hoje, estudiosos costumam dividir a filosofia em antes e depois de Kant — afinal, ele tornou obsoletos vários debates mantidos até ali pelos filósofos modernos. O pensador fez oposição frontal aos raciocínios produzidos somente pela razão, que não questionam se a razão tem capacidade para explicar certas questões. Para Kant, nossa racionalidade é limitada para pensar em Deus e nas “coisas em si”, e a filosofia não deveria se dedicar a esses pontos, ao menos não da maneira como vinha fazendo. Kant inspiraria a prolífica geração de pensadores alemães do século 19, iniciando uma nova era de discussão na filosofia.

ERA CONTEMPORÂNEA

Kant pôs fim na pretensão filosófica de tentar conhecer as coisas tais como elas são, a realidade em si. Depois dele, a filosofia passou a ser basicamente uma grande teoria do conhecimento: o que é possível conhecer verdadeiramente tendo em vista os limites da nossa razão?

Aos poucos, a corte da “rainha das ciências” começou a se desgarrar e criar seus próprios reinos. As ciências humanas, como a psicologia, a sociologia, a antropologia, a história e a geografia, foram ganhando independência e passaram a ser encaradas como campos de conhecimentos específicos, com métodos e resultados próprios. O segundo a minar o poderio filosófico foi Auguste Comte e seu positivismo. O pensador francês achava que a filosofia deveria ser apenas uma reflexão sobre os resultados e o significado dos avanços científicos. Com isso, a filosofia se resignou a estudar o conhecimento adquirido por vias mais sólidas do que o pensamento puro e a ética, que nunca deixou de ser um tema essencialmente dela.

O século 19 também aproximou alguns pensadores da realidade. A crítica de Karl Marx ao modo de produção que, segundo ele, sistematicamente explora os trabalhadores e enriquece os ricos, teve reflexos no mundo real assim que seu Manifesto do Partido Comunista ganhou as ruas. Marx, no entanto, foi uma exceção. O interesse pelas estruturas do conhecimento e pela consciência e seus modos de expressão direcionou a filosofia para recantos herméticos, como os estudos da linguagem — corrente conhecida como filosofia analítica, iniciada pelo austríaco Ludwig Wittgenstein. O movimento ficou conhecido como a “virada linguística”. Outra vertente, conhecida como fenomenologia, se debruçou sobre os fenômenos que se manifestam para a consciência, a partir da ideia kantiana de que a razão é uma estrutura da consciência. Seu criador, Edmund Husserl, considera a realidade como um conjunto de significações ou sentidos produzidos pela nossa razão.

Foi preciso chegar o século 20, com suas grandes guerras e agitações sociais, para colocar a política por fim de volta à pauta dos pensadores, que se tornaram críticos das ideologias e da ideia de progresso. Os filósofos tentaram frear o delírio científico-tecnológico e o otimismo revolucionário que cooptou grande parte dos intelectuais. Passaram a se questionar se o homem, imerso em uma vida acelerada e soterrado pela burocracia, conseguiria ter uma vida feliz e almejar uma sociedade justa. O primeiro a lançar essa dúvida foi o alemão Theodor Adorno, um dos fundadores da Escola de Frankfurt, que buscou inspiração em Marx. Será o homem realmente livre ou uma marionete da sua condição psiquíca e social?

KARL MARX

Karl Marx morreu pobre, esquecido e sem pátria: exilado em Londres, foi velado por apenas 11 pessoas, incluindo o coveiro. Suas ideias, porém, se refletiriam na vida de bilhões durante o século 20. Poucos pensadores exerceram influência política tão clara quanto Marx. Certamente, nenhum foi discutido com tanta paixão — mesmo por leigos. Um pouco disso se deve à missão que Marx julgava ter, hoje estampada em sua lápide: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias formas. A questão, no entanto, é mudar o mundo”. Foi com espírito revolucionário que o alemão, junto de seu amigo e financiador Friedrich Engels, lançou o Manifesto do Partido Comunista, em 1848 — texto curto que ainda hoje ofusca sua obra máxima, o muito mais complexo O Capital.

O panfleto conclamava os trabalhadores a se levantar contra a classe dominante, e se afinou com o sentimento da época. Após o Manifesto, no mesmo ano, várias revoluções sociais eclodiriam pela Europa. Quase todas foram esmagadas, mas ajudaram a pavimentar o caminho para reformas sociais. Marx diagnosticou que as mudanças históricas resultam do conflito entre a classe dominante e a dominada. Em sua época, tal antagonismo seria entre a “burguesia” (dona dos meios de produção) e o “proletariado” (que, sem os equipamentos e o dinheiro para produzir, precisa vender sua mão de obra para sobreviver). No pensamento marxista, o capitalismo geraria crises cíclicas que elevariam a pobreza, pois dela se alimentava. Marx acreditava que precisamente isso seria a ruína do sistema: o desenvolvimento aumentava o número de explorados, que por fim se uniriam pela revolução. A consequência seria uma sociedade sem classes, na qual os meios de produção se tornariam propriedade comum.

Para seus críticos, não há dúvidas de que Marx fracassou. A maioria dos países que tentou seguir a doutrina viu seus governos derrubados, como a União Soviética e as nações vizinhas, ou teve de mudar sua economia, como a China. Em nenhum lugar foi possível concluir a transição prevista por Marx, quando o “socialismo” orientado por um grupo de líderes revolucionários daria lugar ao “comunismo”, em que a própria ideia de Estado seria obsoleta. Os admiradores de Marx sustentam que, apesar dos muitos equívocos, algumas de suas análises foram precisas e seguem atuais. No Manifesto, por exemplo, ele havia apontado que a sociedade capitalista mudaria o formato familiar vigente até o século 19. Em 1998, o historiador inglês Eric Hobsbawm (um marxista convicto) escreveu: “Nos países ocidentais avançados, hoje quase metade das crianças é gerada ou educada por mães solteiras”.

FRIEDRICH NIETZSCHE

Aos 24 anos, Friedrich Nietzsche foi nomeado para lecionar Filosofia Clássica na Universidade da Basileia. O que podia ser o começo de uma promissora carreira acadêmica na verdade foi uma curta incursão, que durou apenas dez anos. Apesar da inclinação à rotina professoral, Nietzsche sofria com enxaquecas, problemas digestivos e respiratórios crônicos, que o fizeram abandonar o cargo na universidade. Na década seguinte, com ajuda de amigos e vivendo de uma minguada pensão, o filósofo realizou diversas viagens para outros países, atrás de climas mais amenos. Enquanto viajava, escrevia. Seus textos fizeram pouco sucesso na época. Assim Falou Zaratustra, por exemplo, só saiu porque o autor pagou parte da publicação do próprio bolso. Até que, em 1889, Nietzsche sofreu um colapso mental do qual nunca se recuperou.

O filósofo passou os últimos anos de sua vida entre manicômios e os cuidados de sua família. Faleceu 11 anos mais tarde, sem ter escrito mais nada. O que ele havia dito até ali? Valendo-se de textos romanceados e de personagens por meio dos quais manifestava algumas de suas ideias, ele se propôs a discutir o futuro de nossos valores morais. Quando escreveu “Deus está morto”, o filósofo não queria dizer que a entidade divina tinha deixado de existir — e sim questionar se ainda era razoável ter fé em Deus e basear nossas atitudes nisso. Nietzsche propunha que, recusando Deus, podemos também nos livrar de valores que nos são impostos. A maneira de fazer isso seria questionando a origem dessas ideias. Ele se definia como um “imoralista”, não porque pregasse o mal, mas por entender que o correto seria superar a moral nascida da religião.

De acordo com seus textos, tanto o pensamento cristão quanto certas doutrinas filosóficas (em especial a de Platão) davam a entender que o mundo em que vivemos é apenas “aparente”, havendo um outro mundo “real”, mais importante. No caso da religião, esse outro mundo só seria acessível após a morte. Para Nietzsche, essa ideia nos impedia de aproveitar a vida em prol de um objetivo imaginário. Ele dizia haver apenas um mundo — e afirmava que, quando percebemos isso, somos obrigados a rever nossos valores e aquilo que entendemos como humano. Influenciado pelo evolucionismo de Charles Darwin, Nietzsche sugere, em Assim Falou Zaratustra, o surgimento de um “super-homem” — um homem futuro, superior aos códigos morais da época do texto. Mais tarde, esse conceito seria distorcido e usado pelos nazistas para justificar sua ideia de uma raça superior e dominante.

EFEITO EXPLOSIVO

Nietzsche construiu sua filosofia juntando várias perspectivas sobre o mesmo tema. Ele não estava interessado em criar uma teoria fechada ou receitas acabadas, mas em experimentar. Toda a sua filosofia foi oferecer hipóteses interpretativas.

Mas seu experimentalismo dinamitou os alicerces da filosofia e do homem ao questionar a crença em Deus, as bases dos valores e a nossa própria forma de raciocinar amparada na dicotomia entre bem e mal ou certo e errado. Classificou os valores como “humanos, demasiado humanos” (nome de uma de suas obras) e não imutáveis como propôs Platão — o que os torna questionáveis.

HEGEL

Não foram poucos os que tropeçaram nas palavras de Georg Hegel, tentando decifrar o real sentido por trás de seus termos difíceis, sua linguagem abstrata e seu gosto por neologismos. Quando se recuperavam, seus leitores se dividiam em dois grupos: alguns consideravam as ideias geniais, outros não tinham dúvida de que ele escondia com a linguagem rebuscada sua incapacidade de compreender o que analisava. Mas nenhum filósofo vindo após o século 19 ficou imune a Hegel, nem que fosse para criticá-lo.

Desde cedo, ele foi um leitor contumaz. Às vésperas de completar 19 anos, ficou impressionado pelos ventos da Revolução Francesa, que saudou como um “glorioso amanhecer”. Eram tempos em que mudar a ordem estabelecida parecia mais possível do que nunca, e esse sentimento acompanharia o alemão na tentativa de explicar a história. Para Hegel, a realidade é um processo histórico, mutável, com as ideias estabelecidas de acordo com o período em que vivemos. Embora nosso costume seja ver a história como uma sequência sem planejamento coerente, Hegel argumenta que existe um padrão para a forma como ela se desenvolve. O filósofo diz que a história caminha para uma conquista gradual de mais razão e liberdade, até a ascensão de um geist — termo que costuma ser traduzido como “espírito” ou “mente”.

Como um idealista, o pensador tinha o geist como algo fundamental para o mundo, contrariando os materialistas, para quem esse posto era da matéria física. Uma das formas de se chegar a esse estágio de pensamento mais evoluído seria pela discussão de uma ideia com o seu oposto: nos termos de Hegel, pela discussão de uma tese com sua antítese. Isso se daria com o método dialético proposto pelo filósofo, que faria surgir uma terceira ideia mais elaborada, formada pelas duas anteriores — a síntese.

Tal processo seria contínuo: a síntese viraria ela mesma uma nova tese, voltando a ser discutida com uma antítese, e formando um novo tipo de pensamento, e assim sucessivamente. Isso seguiria ocorrendo ao longo da história até que o geist alcançasse um pleno entendimento de si mesmo.Tantas abstrações fizeram o pensador colecionar críticos em todas as épocas. Mas os admiradores também foram muitos. Um de seus maiores legados, a visão da realidade como um processo histórico em desenvolvimento, ajudaria a fundamentar, pouco tempo após sua morte, o que viria a ser o pensamento marxista.

KIERKEGAARD

Para Kierkegaard, os filósofos de seu tempo estavam se perdendo em abstrações que se desconectavam da vida cotidiana. O dinamarquês foi em oposição aos colegas e procurou explicar de maneira palpável os dilemas morais, utilizando a noção de que nossas vidas são determinadas por ações, orientadas pelas nossas escolhas. O homem teria liberdade de fazer julgamentos de acordo com sua vontade, por vezes tendo de escolher entre aquilo que é melhor para si mesmo e aquilo que é mais ético. Essa liberdade seria a causa de nossa “angústia” diária. Isto é, cada escolha que fazemos é análoga ao medo de um homem diante de um penhasco, que teme tanto a ameaça da queda quanto o possível impulso de se atirar no vazio para ver no que dá. “O crucial é encontrar uma verdade que seja verdadeira para mim, encontrar a ideia pela qual eu possa viver e morrer”, escreveu.

SCHOPENHAUER

Schopenhauer era um opositor de Hegel — nas ideias e no ego. Quando foi convidado para lecionar em Berlim, marcou suas aulas para o mesmo horário daquelas ministradas pelo concorrente, a quem chamava de “charlatão”. Schopenhauer não ficou nada satisfeito ao ver que os alunos preferiam o rival — apenas cinco se matricularam em sua classe. Ainda assim, foi um dos pensadores mais importantes da época. Sustentou que o mundo e os homens são dirigidos por uma vontade irracional. Enquanto Hegel defendia a ideia de um geist, um “espírito guiando a consciência coletiva e as ações individuais, Schopenhauer era mais pessimista: nossos atos seriam guiados por desejos impossíveis de satisfazer. Tão logo realizássemos uma vontade, surgiria outra.

Para ele, o caminho para atingir a verdadeira felicidade seria justamente a castidade e a renúncia. Apesar da visão desiludida da existência, Schopenhauer dedicou parte da sua obra para tratar do amor — e buscar o amor. Não devemos nos culpar por sofrer de amor, dizia, porque nada na vida é mais importante do que amar. Mas sua visão não era propriamente romântica. Para o filósofo, o amor é um artifício biológico para garantir a sobrevivência da espécie — não amamos senão por um impulso inconsciente que chamou de a “vontade de viver” (ou de ter filhos). Antes de Darwin e Freud, foi o primeiro a apontar razões inconscientes e biológicas da paixão. Ele próprio não foi bem-sucedido no assunto e era um devotado criador de poodles.

AUGUSTE COMTE

Considerado o fundador da sociologia moderna, Auguste Comte direcionou suas reflexões na tentativa de remediar o caos social deixado pela Revolução Francesa. O filósofo desenvolveu a “lei dos três estados”, segundo a qual os homens explicam todos os fenômenos do Universo passando por três fases: a teológica, baseada na suposta vontade de seres sobrenaturais; a metafísica, em que se imagina a ação de forças ocultas; e, finalmente, a fase “positivista”, em que as explicações são decorrentes do conhecimento científico. Para Comte, os critérios das ciências biológicas e exatas ajudariam a explicar até mesmo a sociedade. Seu pensamento teve grande influência no movimento republicano brasileiro, que eternizou parte de uma das máximas de Comte no lema da bandeira nacional.

WITTGENSTEIN

Herdeiro de um dos homens mais ricos da Europa, Ludwig Wittgenstein nasceu em Viena e viajou a Cambridge para concluir sua graduação em Engenharia. Mas se encantou pela lógica e resolveu ir a Manchester para estudar com Bertrand Russell. Seu único livro, Tratado Lógico-Filosófico, de 1921, se tornou um dos principais textos da história da filosofia e impactou todas as ciências ao impulsionar o movimento conhecido como positivismo lógico. O austríaco escreveu o livro enquanto era soldado, durante a 1ª Guerra. Nas 70 páginas de sua obra, empenha-se em definir os limites da linguagem e, consequentemente, de todo o pensamento. Ao concluí-lo, julgou ter resolvido todos os problemas da filosofia. Por considerar que não tinha nada mais a aportar à disciplina, resolveu se dedicar a outras atividades. Passados alguns anos, porém, começou a rever seu próprio pensamento, tornando-se um de seus principais críticos. Foi então que voltou a Cambridge, onde lecionou de 1929 a 1939.

BERTRAND RUSSELL

Nos 97 anos em que viveu, Bertrand Russell testemunhou um sem fim de acontecimentos históricos. Nunca impassível: chegou a passar seis meses na prisão por falar abertamente contra a 1ª Guerra, em 1916. Nascido em uma família aristocrática, o conde Russell formou-se em Matemática e, buscando os fatores que tornavam essa disciplina verdadeira, chegou à Filosofia, em que se fascinou pela Lógica. Russell dedicou grande parte de sua obra a desmembrar a linguagem comum para explicar a estrutura lógica existente sob ela. Acreditava que esse tipo de análise da linguagem, que traduz frases e expressões em termos mais precisos, seria uma ferramenta útil para desvendar segredos que levariam a avanços em todas as áreas da filosofia. Mas seus livros tratam de muitos assuntos, sempre com humor ácido e prosa fluida.

WILLIAM JAMES

Criador do pragmatismo, o americano William James teve seu desenvolvimento intelectual moldado pelas constantes viagens à Europa. Aos 19 anos, o irmão mais velho do escritor Henry James já havia visitado o Velho Continente três vezes. Era fluente em alemão, italiano e francês. Ingressou no curso de Medicina de Harvard em 1864, mas no segundo semestre abandonou temporariamente as aulas para integrar uma expedição de oito meses à Amazônia. Quando finalmente se formou, em 1869, não tinha expectativas de exercer a medicina. Gastava seu tempo estudando psicologia e filosofia. Do pai, também filósofo, herdou um profundo interesse pelos valores morais e espirituais, a necessidade de uma fé. Defendeu que as teorias científicas e filosóficas devem ser julgadas por suas finalidades práticas. Fenômenos como a religião são verdadeiros se tiverem bons resultados. “Em princípios pragmáticos, se a hipótese de Deus funciona satisfatoriamente no sentido mais amplo da palavra, ela é verdadeira”.

EDMUND HUSSERL

O filósofo, astrônomo e matemático Edmund Husserl queria encontrar a certeza. Inspirado em Descartes, buscava libertar a filosofia da dúvida. Então, fundou a fenomenologia, abordagem que propunha olhar para as nossas experiências com uma postura científica. Segundo esse método, tudo o que é real é fenômeno — e aí está a essência das coisas. Diferentemente de Kant, que aceitava a existência de uma verdade incompreensível, Husserl não acreditava em uma realidade inacessível. Há somente o fenômeno ou a essência, que é a maneira como compreendemos as coisas materiais ou imateriais. A abordagem marcou a história da filosofia porque ofereceu um modo de pensar todos os tipos de realidade.

JEAN-PAUL SARTRE

Estamos condenados a ser livres. Essa é a sentença de Sartre para a humanidade. O filósofo e escritor francês, ao lado do argelino Albert Camus, foi um dos maiores representantes do existencialismo, corrente filosófica que nasceu com Kierkegaard e reflete sobre o sentido que o homem dá à própria vida. Para Sartre, a existência do ser humano vem antes da sua essência. Ou seja, não nascemos com uma função pré-definida, como uma tesoura, que foi feita para cortar, por exemplo.

Segundo o filósofo, antes de tomar qualquer decisão, não somos nada. Vamos nos moldando a partir das nossas escolhas. Toda essa liberdade resulta em muita angústia. Essa angústia é ainda maior quando percebemos que nossas ações são um espelho para a sociedade. Estamos constantemente pintando um quadro de como deveria ser a sociedade a partir das nossas ações — o curioso é que o próprio Sartre era viciado em anfetaminas, ou seja, não foi exatamente um exemplo de conduta. Defendia que temos inteira liberdade para decidir o que queremos nos tornar ou fazer com nossa vida. A má-fé seria mentir para si mesmo, tentando nos convencer de que não somos livres. O problema é que nossos projetos pessoais entram em conflito com o projeto de vida dos outros. Eles, os outros, tiram parte de nossa autonomia. Por isso, temos de refletir sobre nossas escolhas para não sair por aí agindo sem rumo, deixando de realizar as coisas que vão definir a existência de cada um. Ao mesmo tempo, é pelo olhar do outro que reconhecemos a nós mesmos, com erros e acertos. Já que a convivência expõe nossas fraquezas, os outros são o “inferno” — daí a origem da célebre frase do pensador francês.

Em uma França devastada após o final da 2ª Guerra, liberdade não era exatamente a palavra do momento. Mas as ideias de Sartre inspiraram toda uma geração de ativistas, como os revolucionários de Paris em maio de 1968, que ajudaram a derrubar o governo conservador francês. O filósofo ficou conhecido também pela sua relação com Simone de Beauvoir, outra ilustre filósofa existencialista. Ela foi sua companheira de toda a vida, apesar de nunca terem firmado um compromisso. Sartre morreu como um filósofo pop. Em 15 de abril de 1980, mais de 50 mil pessoas foram ao seu funeral.

THEODORE ADORNO

Em meados do século 20, meios de comunicação como rádio, jornais e revistas começavam a atingir grandes plateias, mas o fenômeno demorou para despertar atenção da filosofia — até que Adorno resolveu se debruçar sobre o assunto em um dos capítulos do clássico Dialética do Esclarecimento, escrito junto com o amigo Max Horkheimer. Na obra, a dupla mostra como o saber está ligado a processos de dominação na história da civilização. As críticas se tornaram fundamentais para compreender não só o impacto das novas tecnologias de comunicação na sociedade, mas como o poder está mascarado pelo saber na atualidade. Filósofo, sociólogo, compositor musical e crítico de arte, Theodor Adorno foi um dos fundadores da Escola de Frankfurt, grupo informal de pensadores de orientação marxista. Quando se formou em filosofia, em 1924, já era amigo de Walter Benjamin e de Horkheimer, que também se firmariam como grandes expoentes da Escola.

Sua fama intelectual surgiria quase uma década mais tarde, com a publicação de uma tese sobre Kierkegaard, em 1933. Era o ano em que Hitler assumia o poder na Alemanha, obrigando Adorno e vários intelectuais a abandonar o país. A primeira parada foi Londres, onde lecionou três anos em Oxford. Em 1938, um convite de Horkheimer para dirigir o projeto de investigação radiofônica da Universidade de Princeton o levou aos EUA. O filósofo não gostou do que viu na América, mas o contato com o ambiente no qual os meios de comunicação estavam em frenética expansão foi fundamental para o desenvolvimento de sua obra. A observação de um universo regido por interesses, lucro e conveniências o motivou a refletir atentamente sobre a massificação da cultura. Para ele, os meios de comunicação de massa eram parte fundamental da indústria cultural, uma criação do capitalismo que molda a mentalidade das pessoas que aderem a ela inconscientemente. Adorno considerava que o rádio, por exemplo, semeava o conformismo e a resignação, tornando a população inerte frente a um sistema que desfigura a essência do ser. E a televisão sequer havia chegado.

Em 1949, Adorno e outros colegas decidiram voltar à Alemanha e reconstruir em Frankfurt o Instituto para Pesquisa Social, que havia sido transferido para Nova York durante o nazismo. Rapidamente, chegou ao posto de diretor. O filósofo morreu em 1969, deixando incompleta sua Teoria Estética, em que defende a relevância do pensamento crítico. Cada ato profundamente crítico, dizia, é como uma garrafa lançada ao mar para futuros destinatários. Uma das mensagens dessa garrafa é de que a indústria da cultura engana constantemente seus consumidores ao prometer entregar-lhes uma felicidade plena que é irrevogavelmente ilusória.

HANNAH ARENDT

Autora inspirada pelos acontecimentos que a rodeavam e pela sua própria experiência, Hannah acompanhou o julgamento de um nazista duas décadas depois de ela mesma ter escapado de um campo de concentração. O homem no banco dos réus, em Jerusalém, era Adolph Eichmann, responsável por ajudar a transportar milhares de judeus para a morte durante o Holocausto. Hannah queria entender por que Eichmann fez coisas tão terríveis. Seus ensaios para a revista New Yorker revelavam que o réu era um homem comum que havia optado por não pensar sobre o que fazia. Não tinha ódio pelos judeus, nem a psicopatia de Hitler. Eichmann alegava que apenas cumpria ordens ao planejar como milhares de pessoas seriam levadas a campos de concentração. A filósofa usou o termo “banalidade do mal” para descrever o que viu em Eichmann, expressão que não procurava rebaixar a gravidade dos crimes, mas aumentá-los. Sua conclusão era de que o mal não nasce do desejo de praticar o mal, mas da rendição das pessoas a falhas de julgamento, por vezes incentivadas por sistemas opressivos. Nada disso, é claro, exime o mal praticado.

HEIDEGGER

O alemão reabilitou a metafísica no século 20 depois da disciplina ter sido esquecida por três séculos. Mas, ao retomar a preocupação sobre o que é o ser, ele reposicionou radicalmente o pensamento sobre a existência. Da Antiguidade ao século 17, o ser e o ente (coisa) recebiam tratamentos iguais. Para o filósofo, o ser não é uma coisa. O ser tem um caráter histórico, é um movimento, logo não se pode determinar o que é a sua essência. O ser só pode ser pensado, não enunciado. Complexo? Sim, muito. Heidegger é conhecido pela hermetismo. Mas não só por isso. Um dos seus pensamentos mais originais foi sobre a tecnologia, que poderia exercer controle sobre a natureza. Só que esse controle seria uma ilusão. As mudanças climáticas, agravadas pela ação da tecnologia sobre a natureza, são um exemplo de como não temos total poder sobre a natureza. Escreveu tanto que, antes de morrer, deixou textos para alguns editores, e obras inéditas ainda chegam às livrarias desde a década de 1970.

KARL POPPER

Se o nazismo não tivesse desviado a história de seu curso natural, Popper provavelmente teria sido apenas um obscuro professor de filosofia da ciência em Viena. Mas Hitler motivou o filósofo a escrever A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, livro-chave para o pensamento liberal moderno. Nessa defesa da democracia, Popper cita o historicismo como um dos maiores advsersários da sociedade, pois isenta os homens do ônus de suas responsabilidades ao considerar que o futuro já está definido independentemente de suas ações. Depois da ocupação nazista, fixou residência na Inglaterra, onde foi professor da London School of Economics e da Universidade de Londres. Interessado no método pelo qual a ciência decifra o mundo, criou o conceito de falseabilidade. Para ele, o que torna uma teoria realmente científica é a possibilidade de provar que ela é falsa pela experiência. Por exemplo: por anos, os cientistas acreditavam que só existiam cisnes brancos, pois nunca haviam visto um cisne negro. A aparição de um cisne negro desmonta a tese. A única maneira de provar que todos os cisnes são brancos é vendo todos os cisnes. A ideia é usada para diferenciar alegações científicas e não científicas. Popper se tornou um dos filósofos da ciência mais destacados do século 20.

FOUCAULT

Inquieto e curioso em relação à existência, Michel Foucault frustrou uma família de médicos ao enveredar pelo caminho da filosofia e da psicologia. Nenhum desses títulos, porém, o satisfazia. Preferia ser definido como arqueólogo, por sua dedicação a reconstituir o que de mais profundo existe em uma cultura.

Inspirado no pensamento de Nietzsche, desenvolveu um método que coloca em cheque a compreensão linear da história. Para ele, a verdade histórica não é uma sequência rigorosa de causa e efeito facilmente compreensível em qualquer época, mas, sim, o resultado de um confronto entre forças antagônicas que fazem sentido em determinado tempo. Seu objetivo era compreender como antigos fenômenos podem ser reconstituídos da forma como foram vividos. Como é possível, em suas palavras, fazer uma “história do presente”? Por exemplo, a Lei Seca instituída nos EUA, em 1919, pode ser vista hoje como uma maluquice dos legisladores americanos, mas quem investigar a mentalidade do início do século 20 e os conflitos provocados pelo álcool vai entender melhor por que uma decisão tão radical foi tomada.

O pensador estava mais preocupado no modo como nosso discurso — isto é, como falamos e pensamos o mundo — é condicionado por regras, muitas vezes inconscientes, fixadas pelas condições históricas do momento. Essas regras mudam — daí viria a necessidade de se fazer uma “arqueologia” para desvendar como era no tempo antigo. Para Foucault, era errado supor que podemos falar de “homem” da mesma maneira como na Antiguidade. Segundo o pensador, o homem como objeto de estudo, por exemplo, surgiu no início do século 19 — o que explica sua célebre frase acima. Seu estudo que desvenda as formas de exercício de poder na sociedade também é notório. Foucault acreditava que a compreensão do que somos, pensamos e fazemos abre uma possibilidade de ser, pensar e fazer de outra forma.

Essa é a grande contribuição para a filosofia do trio rebelde, como ficaram conhecidos Foucault, Derrida e Deleuze, seus dois colegas franceses também badalados depois dos anos 60. Consagrado, Foucault foi convidado a lecionar no prestigiado Collège de France. Morreu aos 57 anos, em 1984, no ápice da sua produção intelectual. Deixou inacabada a sua História da Sexualidade, seu livro mais ambicioso, no qual pretendia mostrar como, por meio da expressão e não da repressão, a sociedade ocidental faz do sexo um instrumento de poder.

RAWLS

Tem lugar no hall da fama dos filósofos políticos. Abalado pela injustiça das bombas atômicas da 2ª Guerra, onde lutou pelo exército americano, encontrou na filosofia sua maneira de mudar a sociedade. Ao longo de 20 anos, maturou as reflexões que resultariam no best-seller Uma Teoria da Justiça. No livro, o professor de Harvard defende que as instituições políticas devem ser justas e propõe experimentos mentais inovadores para definir o que é justo ou não.

Sua teoria parte de uma situação hipotética: um grupo de pessoas na “posição original”, ou seja, sem saber seu lugar na sociedade, definiria as novas regras. Esses indivíduos estariam encobertos pelo “véu da ignorância” e assim decidiriam o que é mais justo para todo mundo. E como ninguém queria sair prejudicado, escolheriam as regras mais imparciais. A tese baseava-se em dois princípios caros: liberdade e igualdade. Casos de jogadores de futebol que ganham milhões eram considerados absurdos pelo pensador. Essa situação só era aceitável se o fato do jogador ser muito rico tornasse os miseráveis menos pobres. Para Rawls, não havia ligação direta entre ser bom em algo e merecer ganhar mais. Esse talento seria uma espécie de “loteria natural”, ou seja, seria injusto premiar o craque duas vezes.

DAWKINS

Dawkins não é e nem pretende ser filósofo. Mas, em 1976, quando era um biólogo ainda pouco conhecido, publicou O Gene Egoísta, e ajudou a redefinir a percepção sobre quem somos — uma tarefa que sempre coube aos filósofos. No livro, defende que não somos muito mais do que robôs comandados pelos genes para sobreviver a qualquer custo. E o que faz um gene prosperar em um ambiente altamente competitivo é seu egoísmo implacável. Apesar da visão desencantada, a obra se tornou um dos maiores best-sellers da ciência, e Dawkins, uma notoriedade. Mesmo sem querer, se colocou ao lado dos pensadores que ajudaram o homem a compreender melhor seu papel no planeta. Sua sacada foi perceber que o processo de evolução das espécies ocorre no nível genético (o gene é sua unidade fundamental ou multiplicador) e que a visão darwinista também pode ser útil para compreender o progresso cultural. Dawkins cunhou o termo meme, que seria um equivalente comportamental do gene, para levar a visão evolucionista para fora da biologia. O conceito deu origem à memética, que inspirou filosófos como Daniel Dennett. O cientista também é ateu declarado, autor de Deus, um Delírio.

BAUMAN

Zygmunt Bauman era sociólogo por formação, mas sua obra mais contundente faz uma crítica filosófica profunda da modernidade. Cunhou o conceito “modernidade líquida” para explicar como nada hoje em dia é feito para durar, do amor à profissão, tudo é líquido, muda de forma muito rapidamente e sob pouca pressão. Dessa instabilidade permanente, nasce uma angústia do homem diante do futuro e do progresso — e isso explica o boom do consumo de antidepressivos, anabolizantes e toda a ordem de entretenimento que ajude a afastar essa sensação. Modernidade Líquida é apenas uma das 40 obras (sendo 16 delas traduzidas para o português) do pensador, que foi professor emérito da Universidade de Leeds, na Inglaterra.

O PAI DO PÓS

Em 1979, o pensador francês Jean-François Lyotard lançou o livro A Condição Pós-Moderna, cujo principal mérito foi colocar a expressão pós-modernidade no vocabulário intelectual e popular. O conceito tem zilhões de definições, mas pode ser resumido como essa nova fase da humanidade em que a busca pelo progresso terminou, e os indivíduos estão livres para criar tudo novo (tudo mesmo), sem as amarras das forças do passado, como o capitalismo.

E HOJE?

O físico Stephen Hawking anunciou em 2011, na badalada conferência Zeitgeist, do Google, que a filosofia está morta. “A maioria de nós em algum momento se pergunta: por que estamos aqui? De onde viemos? Tradicionalmente, essas são questões para a filosofia, mas a filosofia está morta”, vaticinou um dos mais brilhantes cientistas da atualidade. “Filósofos não conseguem estar a par do desenvolvimento moderno da ciência, particularmente da física”, disse, sem piedade. Para Hawking, a filosofia do século 21 é aquele garoto que chegou à festa depois que os convidados haviam ido embora.

Apesar de causar mal-estar entre filósofos badalados, como o esloveno Slavoj Zizek, a cutucada de Hawking não é nova. Desde o século 19, a morte da filosofia vem sendo anunciada. Mas, agora, o avanço sem precedentes da ciência, especialmente da neurociência, confronta uma das grandes motivações da filosofia desde a Antiguidade: a busca pela certeza. Se a ciência fornece respostas exatas, o que sobraria para a filosofia discutir? Nada, na opinião de Hawking. Na resposta pública ao físico popstar, os filósofos Creston Davis e Santiago Zabala concordam que a filosofia que vira as costas para as descobertas da ciência, se ainda não morreu, está com os dias contados. Na filosofia do século 21, afirmam, a busca por certezas ou consensos não é mais seu objetivo primordial. Como diz Slavoj Zizek, “a filosofia na atualidade é uma disciplina bem modesta. Não resolve os problemas”.

Sem tentar ser a solução para tudo, a filosofia moderna se mostra útil na formulação de novas interpretações dos fenômenos sociais. Ela se volta para discutir eventos históricos e avanços tecnológicos e científicos, um campo fértil para questionamentos desconcertantes sobre o nosso papel na sociedade, os sistemas de governo, a relação do homem com as máquinas e o próprio livre-arbítrio. Como sempre fez, a filosofia ainda encontra espaço para apontar incoerências e aprofundar questões como o respeito aos animais, a ética do dinheiro, nossa responsabilidade diante da miséria no mundo e o direito de decidir a hora de morrer — como traz à tona um dos mais proeminentes pensadores da atualidade, Peter Singer.

Mais: duas perguntas em particular seguem fora da jurisdição da ciência — e, consequentemente, vão para o terreno da filosofia. A primeira é a natureza da nossa consciência. Por que e como se forma a percepção de cada pessoa de que ela é um único e irrepetível indivíduo? Descartes tinha razão quando compreendeu que o pensamento comprova a nossa existência, mas nem ele — nem ninguém — conseguiu explicar por que pensamos, afinal de contas. Por último, o mais abismal dos porquês: por que estamos aqui? Por que existe tudo isso em vez de um imenso e eterno nada? Cientistas estão longe da resposta, mas não deixam de persegui-la. E filósofos não se esquecem de seguir perguntando.

https://super.abril.com.br/especiais/uma-breve-historia-da-filosofia/

 

2 COMENTÁRIOS

  1. Ótimo trabalho!
    Após perder muito tempo na internet encontrei esse blog
    que tinha o que tanto procurava.
    Parabéns pelo texto e conteúdo, temos que ter mais
    artigos deste tipo na internet.
    Gostei muito.
    Meu muito obrigado!!!

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