CESTE-Aula de Sociologia das organizações em Maranõzinho Ministrada pelo professor Correia para os alunos do Curso de Contabilidade e Administração

A Sociologia surgiu no século XIX como decorrência das profundas transformações nas sociedades ocidentais provocadas pela Revolução Industrial que teve início na Inglaterra e pela Revolução Francesa de 1789. 

A desestruturação da sociedade tradicional, com a perda de suas principais referências, que garantia um mínimo de estabilidade, como a organização econômica baseada na agricultura, e a existência de um claro domínio político da nobreza provocaram a necessidade de encontrar alternativas que servissem como modelo a um novo tipo de organização social. E, para tanto, era necessário surgir uma ciência que estudasse os fenômenos que estavam ocorrendo, visando entendê-los, interpretá-los e propor alternativas viáveis.

Os precursores da Sociologia e os primeiros sociólogos vislumbraram como núcleo dessa nova sociedade a forma de organização trazida pela indústria, destacando-se o papel dos empresários e da racionalidade científica como elementos novos de articulação de uma nova ordem.

Nesse sentido, a nova forma de organização, a indústria, passa a ocupar lugar de destaque na sociedade, principalmente pelo fato de que o aumento de produtividade permitiu o atendimento de um número maior de consumidores de produtos a que outrora somente as classes superiores tinham acesso.

  • Assim, ao lado da necessidade de estudar os novos fenômenos sociais trazidos pela industrialização, a indústria por si mesma torna-se objeto de estudo das ciências sociais. Esse fato mostra que a necessidade de estudo da organização industrial caminha concomitantemente com a construção dessa nova ciência, a Sociologia. Num primeiro momento, o estudo da indústria coube a uma vertente denominada Sociologia industrial, que pode ser considerada a precursora da disciplina Sociologia das Organizações.
  • No final do século XIX, com a Revolução Industrial se espalhando por todo o globo, os estudos organizacionais tornaram-se cada vez mais necessários e desenvolve-se, concomitantemente com a análise sociológica, uma vertente de teóricos, em sua maioria engenheiros e gerentes, que produzem uma literatura sobre as organizações e que no seu conjunto constituem a denominada Escola Clássica ou Tradicional.

Assim, a disciplina Sociologia das Organizações nasce juntamente com a Teoria das Organizações, e torna-se muito difícil desvencilhar uma da outra, sendo que ao longo de todo o século XX podemos afirmar que o estudo sociológico das organizações confunde-se com aquele realizado em torno da Teoria das Organizações.

1.1 O surgimento da sociologia

No século XVIII, o ocidente começou a sofrer profundas transformações. Foram descobertas novas técnicas, que implicaram na criação de máquinas e equipamentos que revolucionaram o antigo modo de produção de mercadorias. Com a Revolução Industrial, que teve início na Inglaterra, as formas antigas de organização mudariam radicalmente. Com o crescimento da população mundial, a demanda de produtos cresceu e ocorreram mudanças significativas nas formas de produção e de organização.

A Sociologia surgiu no século XIX num momento em que se consolidava a primeira fase da Revolução Industrial. Suas abordagens iniciais buscavam compreender o contexto da industrialização e o papel desempenhado na sociedade pelas novas e dinâmicas organizações empresariais e os seus principais agentes: o empresário capitalista e o operário. Desenvolveu-se essa nova disciplina primeiramente com o objetivo de compreender as mudanças que estavam ocorrendo na nova sociedade que se erguia sob a influência da indústria; em seguida, passou para uma abordagem analítica e crítica.

O surgimento da Sociologia ao longo do século XIX é possível porque há uma crescente tomada de consciência da existência de uma sociedade complexa e dinâmica, geradora de novos problemas sociais, que gradativamente vai sendo considerada como objeto de análise, em cujo estudo se pode adotar o método científico.

Auguste Comte (1798-1857) é considerado o pai da Sociologia, pois estabeleceu claramente o campo de pesquisa da nova ciência como sendo a sociedade. A disciplina por ele criada teve continuidade com Herbert Spencer, Émile Durkheim e Max Weber, entre outros, que foram estabelecendo os limites de atuação da Sociologia. O estudo das interações humanas e da sociedade vai se tornando cada vez mais o ponto central de referência para as ciências sociais.

AUGUSTE COMTE (1 798-1 857)

Isidore Marie Auguste François Xavier Comte é considerado o criador do positivismo e da sociologia. Nasceu em Montpellier, França. Com a idade de 16 anos, em 1814, ingressou na Escola Politécnica de Paris, fato que exerceria significativa influência na construção de seu pensamento. Comte considerava a Politécnica a primeira comunidade verdadeiramente científica, que deveria servir como modelo de toda educação superior.

A Escola Politécnica foi fundada em 1794, como um dos frutos da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. Comte identificou leis universais na atividade de todas as ciências e ao combiná-las desenvolveu uma classificação hierárquica e sistemática de todas elas, inclusive a física inorgânica (astronomia, geologia e química) e a física orgânica (biologia), e, pela primeira vez, a física social, que posteriormente denominou de sociologia. A ideia de uma ciência voltada para o social era uma necessidade em virtude do grande número de problemas trazidos pela industrialização e que se refletiam em toda a sociedade. Comte considerava esta nova ciência, a sociologia, como a mais significativa de todas e que integraria todas as outras num todo coeso. Obras principais: Curso de filosofia positiva – 6 tomos (1830-1842); Discurso sobre o espírito positivo (1844).

Comte, como discípulo de Saint-Simon (1760-1825), via a sociedade moldada de acordo com a organização industrial. A fábrica, como sistema de produção, destacava-se como uma organização fundamental no novo tipo de sociedade que se vai instaurando rápida e progressivamente ao longo do século XVIII na Inglaterra e no século XIX no restante da Europa e Estados Unidos da América (EUA), substituindo as sociedades tradicionais baseadas na produção agrícola.

Do ponto de vista dos primeiros sociólogos, a empresa torna-se a instituição básica e modelar da nova sociedade, é o eixo central de articulação de uma sociedade dinâmica baseada na produtividade.

Os industriais e os novos trabalhadores assalariados, unidos por vínculos recíprocos de direitos e obrigações, formam o núcleo desta nova instituição na qual se incorporam gradativamente novas posições sociais, tais como: técnicos, funcionários administrativos, gerentes etc.

A expansão desta nova forma de organização durante os séculos XIX e XX é tanto espacial — com o surgimento de fábricas nos mais diversos lugares — como funcional, pelo fato de que outras instituições adaptam suas estruturas às formas empresariais: o exército, as igrejas e os partidos políticos, por exemplo.

HENRY DE SAINT-SIMON

(1760 -1825)

Claude-Henry de Rouvroy, Conde de Saint-Simon. Filósofo e teórico social francês. Nasceu em Paris, e pode ser considerado como o primeiro teórico da sociedade industrial. Aristocrata, suas simpatias por ideias liberais e republicanas o salvaram da guilhotina durante a Revolução Francesa, e depois da restauração desenvolveu um sistema de ideias sobre o progresso social. É um dos que mais contribuíram para o estudo da sociedade em seu tempo, sendo considerado por muitos como um dos iniciadores da sociologia. Lutou na Guerra da Independência dos Estados Unidos, contra os ingleses.

Desenvolveu o que ficou conhecido como “as características ideológicas do industrialismo”: onde afirmava que todos devem trabalhar e serem premiados de acordo com o mérito, que todo progresso é baseado na ciência, e que a sociedade do futuro será pacífica, próspera e adotará estritamente os princípios científicos.

Saint-Simon reuniu vários discípulos entusiastas. Exerceu grande influência sobre Auguste Comte, tendo ambos trabalhado juntos de 1817 a 1824.

Entre os pontos em comum que tinham entre si os primeiros sociólogos (agrupados na denominada Sociologia Clássica), encontra-se a importância que é dada à “indústria como núcleo da organização social, tanto em suas possibilidades de desenvolvimento e progresso real para as condições de vida das pessoas individuais como em seu aspecto de instituição que abriga e gera conflitos nunca conhecidos em épocas anteriores”(Lucas Marin,2002,p.6)

A partir da Revolução Industrial as organizações passaram a exercer um papel fundamental na vida humana, a tal ponto que hoje seria inconcebível pensar o cotidiano sem elas. De fato, estão presentes ao longo de toda nossa vida e nos relacionamos com diversas organizações ao longo de um único dia. Constituem exemplos: as empresas, os sindicatos, as cooperativas, os clubes esportivos, os bancos, os partidos políticos, as escolas, as organizações não governamentais, as penitenciárias, os hospitais, entre outras.

Não há muita dificuldade em identificarmos as organizações, no entanto não é tão fácil estabelecer as diferenças entre elas ou em relação a outras formas sociais, como a família, os movimentos sociais e as comunidades, por exemplo. Este fato nos remete à necessidade de aprofundarmos a base conceitual através de estudos de organizações concretas.

O grande número de organizações, o papel que desempenham nos processos sociais e seu papel como agentes ou opositoras de mudanças sociais as converteram, portanto, em objeto de estudo das ciências sociais de um modo geral, e da sociologia em particular.

1.2 O estudo das organizações

Podemos encontrar ideias relevantes para o estudo das organizações ao longo de toda a história, no entanto, os primeiros estudos sistemáticos do comportamento organizacional foram realizados no final do século XIX. Motivados pelas mudanças na estrutura social, que estavam associadas com a industrialização e a crescente burocratização, intelectuais das mais diversas disciplinas começaram a prestar mais atenção às organizações e seus efeitos na vida social. (Scott, 2004)

O conceito de organização tem como ponto de partida a sociologia, mas tem vínculos com outras disciplinas, tanto em termos de estudo quanto aplicação, que correspondem basicamente às ciências sociais e do comportamento (Sociologia, Antropologia e Psicologia) e ao econômico empresarial (administração, economia).

As primeiras abordagens tiveram como foco principal a racionalização do processo de trabalho, deixando num segundo plano (e até ignorando) o ambiente externo da organização e o papel dos grupos informais no processo de trabalho, destacando-se nesse período os trabalhos de Taylor e Fayol. As análises e conclusões de Weber sobre as transformações no sistema administrativo das administrações governamentais, e a importância que deu ao sistema administrativo racional-legal, contribuíram para reforçar as proposições desse conjunto de autores reunidos no que denominamos de Escola Clássica.

Como uma reação a essas versões tecnocráticas, os cientistas sociais durante as décadas de 1930 e 1940 passaram a se contrapor a essa concepção racional-instrumental da organização. Entre esses pesquisadores, os psicólogos descobriram motivos individuais mais complexos, e os estudos de antropólogos e sociólogos revelaram a existência não oficial de padrões informais de cooperação, normas compartilhadas e conflitos dentro de cada grupo e entre gerentes e trabalhadores. (Scott, 2004).

 Destacaram-se nesse período os trabalhos de Elton Mayo sobre o comportamento das trabalhadoras de uma fábrica da Western Electric e que constituem o marco inicial da Teoria das Relações Humanas.

Elton Mayo

O que estava ausente nessas abordagens iniciais tanto da Escola Clássica quanto da Teoria das Relações Humanas era a análise da organização como uma unidade social, um agente diferenciado da sociedade. Considerando este aspecto, entre os primeiros que estudaram a organização como uma unidade de interesse estavam Barnard e Selznick, que observaram que as organizações não eram somente sistemas de produção técnica, mas também sistemas sociais adaptáveis que buscavam sobreviver em seu meio ambiente. (Nos referimos aos trabalhos de Barnard (1938), The functions of the executive, e de Selznick (1948), Foundations of the theory of organization. Ao longo do livro utilizaremos os textos em português, referenciados em Barnard (1971), As funções do executivo, e Selznick (1973), Fundamentos da teoria de organização).

Philip Selznick
1919 – 2010

Barnard dedicou bastante atenção à interdependência das estruturas formais e informais no interior das organizações, o que lhe permitiu perceber que a função primária do executivo não é projetar sistemas eficientes, mas criar e promulgar visões morais relacionadas com a missão da organização que irão comprometer; de forma mais concreta, os seus integrantes.

Selznick, por sua vez, enfatizou que as organizações poderiam ser encaradas sob dois pontos de vista, analiticamente distintos. Por um lado, qualquer organização “representa um sistema de relações que define a disponibilidade de recursos escassos e que podem ser manipulados em termos de eficiência e eficácia”. Por outro lado, constituem sistemas cooperativos e estruturas sociais adaptáveis. (Selznick,1973,p.32).

Na década de 1950, Gouldner sintetizou estas duas visões, identificando-as com um sistema racional e um sistema natural.

A perspectiva do sistema racional considera as organizações como instrumentos que podem ser conscientemente manipulados e moldados para realizar determinados fins. A perspectiva do sistema natural vê a organização como um sistema orgânico buscando sua sobrevivência, como coletividade que envolve espontaneamente processos indeterminados.

Posteriormente, Burns e Stalker identificaram estas duas visões com diferentes estruturas organizacionais às quais denominaram: mecânicas (ou mecanicistas) e orgânicas. (Burns e Stalker, 1961)

As críticas à racionalização mecanicista se intensificaram nesse período com a utilização da abordagem sistêmica e o desenvolvimento do estrutural-funcionalismo na sociologia dos anos 50. O sociólogo Robert Merton mostrou que as regras tendem a ser supervalorizadas nas organizações burocráticas. Enquanto originalmente se constituem nos meios para realizar os objetivos da organização, regras e a obediência a elas tendem a se tornar os principais valores da organização, encobrindo os objetivos originais. Para ele, “a adesão às regras, originariamente concebida como meio, transforma-se em objetivo em si próprio: ocorre o processo familiar do deslocamento de metas, mediante o qual ‘um valor instrumental transforma-se em valor terminal”. A análise de Merton, também, indicou que o conhecimento especializado dos burocratas pode diminuir a flexibilidade e a inovação da organização. (Merton, 1973, p.62).

1973, p.136).

ROBERT KING MERTON (1910-2003)

Sociólogo norte-americano, nasceu na Filadélfia em 1910 e faleceu em New York em 2003. É considerado o pai da teoria das funções manifestas e latentes, e deu importante contribuição à sociologia da ciência. Realizou o doutorado na Universidade de Harvard e em 1941 começou a lecionar na Universidade Colúmbia, em NewYork. Ali, juntamente com Talcott Parsons, desenvolveu a teoria sociológica estrutural-funcionalista, que privilegia a análise das partes que integram a sociedade e a relação entre elas. Continuou ensinando na Universidade Colúmbia até 1979.

No mesmo período, início da década de 60, o sociólogo francês Michel Crozier; em seu livro O fenômeno burocrático, de 1963, concluiu que é inevitável que as organizações burocráticas se adaptem às mudanças do meio ambiente, pois “embora seja capaz de resistir à mudança mais tempo que outro sistema menos burocrático, mudará finalmente, pois a mudança se converteu em lei em nosso tempo”.(Crozier, 1969, p.83)

As críticas à escola clássica desse modo pautaram o estudo das organizações no início da segunda metade do século XX, anos 1950 e 1960.

1.3 O estudo sociológico das organizações

A sociologia das organizações, integrante do campo das ciências sociais, surge e se desenvolve diretamente vinculada às profundas transformações causadas pela Revolução Industrial e pelo papel relevante desempenhado nesta pelas empresas industriais. O processo de industrialização foi marcado pela transformação das sociedades tradicionais, baseadas principalmente na produção agrícola, em outras de novo tipo, em que a organização e a produção industrial têm uma importância fundamental na articulação de novas formas de convivência que predominaram no último século e que constituem em sua essência o arcabouço da sociedade que denominamos capitalista.

A Sociologia das Organizações começa com o trabalho do sociólogo alemão Max Weber (1864-1.920), que abordou a burocracia. Embora Weber tenha estudado a burocracia sob a perspectiva histórica e focado principalmente a mudança dos padrões da autoridade política e organizações governamentais, a maioria das pesquisas que se seguiram — e baseadas em seus estudos — tinham como foco as empresas e apresentavam pouco interesse nas comparações históricas que o motivaram. No entanto, as ideias de Weber constituem uma contribuição fundamental com muitas implicações, e não foram questionadas em sua essência por estudos posteriores. (Handel, 2003,p.5)

 O papel de Weber é destacado por vários autores, entre os quais Morgan, que considera que a teoria abrangente de organização e administração recebeu uma importante contribuição desse sociólogo, que observou paralelos entre a mecanização da indústria e a proliferação de formas burocráticas de organização. Identificou que “as formas burocráticas rotinizam os processos de administração exatamente como a máquina rotiniza a produção”. (Morgan 1996,p.26).

No entanto, como um campo reconhecido de estudo das ciências sociais, o estudo das organizações emerge, com vigor durante a década de 1950, caracterizando-se no início pela interdisciplinaridade. Nessa década, a Sociologia das organizações tem os seus conteúdos e orientação estabelecidos; e nas décadas de 60 e 70 se institucionaliza marcada pelo funcionalismo, isto graças ao desenvolvimento de pesquisas e a inúmeras publicações. Nos anos posteriores houve uma dispersão em correntes teóricas muito diferentes. [De acordo com Burrell e Morgan (1979) e Clegg, Hardy e Nord (1996)].

De acordo com Etzioni, num texto de 1958, a Sociologia Organizacional “relaciona-se com papéis e com processos de interação, comunicação e autoridade, que são especializados para servir a metas sociais específicas”. Quanto ao modelo teórico, está bem desenvolvido e baseado na teoria da burocracia de Max Weber, “modificada de forma significativa e melhorada quando o estudo de aspectos racionais foi suplementado pelo estudo de aspectos não racionais e irracionais”. (Etzioni 1973, p.136).

1.3 O estudo sociológico das organizações

A sociologia das organizações, integrante do campo das ciências sociais, surge e se desenvolve diretamente vinculada às profundas transformações causadas pela Revolução Industrial e pelo papel relevante desempenhado nesta pelas empresas industriais. O processo de industrialização foi marcado pela transformação das sociedades tradicionais, baseadas principalmente na produção agrícola, em outras de novo tipo, em que a organização e a produção industrial têm uma importância fundamental na articulação de novas formas de convivência que predominaram no último século e que constituem em sua essência o arcabouço da sociedade que denominamos capitalista.

A Sociologia das Organizações começa com o trabalho do sociólogo alemão Max Weber (1864-1.920), que abordou a burocracia. Embora Weber tenha estudado a burocracia sob a perspectiva histórica e focado principalmente a mudança dos padrões da autoridade política e organizações governamentais, a maioria das pesquisas que se seguiram — e baseadas em seus estudos — tinham como foco as empresas e apresentavam pouco interesse nas comparações históricas que o motivaram. No entanto, as ideias de Weber constituem uma contribuição fundamental com muitas implicações, e não foram questionadas em sua essência por estudos posteriores. (Handel, 2003,p.5)

 O papel de Weber é destacado por vários autores, entre os quais Morgan, que considera que a teoria abrangente de organização e administração recebeu uma importante contribuição desse sociólogo, que observou paralelos entre a mecanização da indústria e a proliferação de formas burocráticas de organização. Identificou que “as formas burocráticas rotinizam os processos de administração exatamente como a máquina rotiniza a produção”. (Morgan 1996,p.26).

No entanto, como um campo reconhecido de estudo das ciências sociais, o estudo das organizações emerge, com vigor durante a década de 1950, caracterizando-se no início pela interdisciplinaridade. Nessa década, a Sociologia das organizações tem os seus conteúdos e orientação estabelecidos; e nas décadas de 60 e 70 se institucionaliza marcada pelo funcionalismo, isto graças ao desenvolvimento de pesquisas e a inúmeras publicações. Nos anos posteriores houve uma dispersão em correntes teóricas muito diferentes. [De acordo com Burrell e Morgan (1979) e Clegg, Hardy e Nord (1996)].

De acordo com Etzioni, num texto de 1958, a Sociologia Organizacional “relaciona-se com papéis e com processos de interação, comunicação e autoridade, que são especializados para servir a metas sociais específicas”. Quanto ao modelo teórico, está bem desenvolvido e baseado na teoria da burocracia de Max Weber, “modificada de forma significativa e melhorada quando o estudo de aspectos racionais foi suplementado pelo estudo de aspectos não racionais e irracionais”. (Etzioni 1973, p.136).

Nesse mesmo ano, March e Simon distinguiram dois rumos principais na evolução das teorias tradicionais de organização. Um primeiro, identificado com a administração científica (que denominam de teoria fisiológica da organização), “focaliza as atividades materiais básicas envolvidas na produção, sua característica típica são os estudos de tempos e métodos”. O segundo, afirmam, se identifica com os trabalhos de Gulick e Urwick (1937 apud March e Simon 1972) e “preocupa-se mais com os grandes problemas de organização, representados pela divisão de trabalho e coordenação departamental”. (March e Simon (1972), Teoria das organizações, é a tradução em português do livro Organizations (1958). p. 31-60.

 Consideram que essas teorias apresentam “apenas uma parcela bem pequena de todo o complexo teórico relativo ao comportamento na organização”.

 MAX WEBER (1864-1920)

Sociólogo e economista alemão, considerado um dos fundadores da sociologia e da administração pública. Foi professor de Economia nas universidades de Freiburg e Heidelberg. Participou da comissão que redigiu a Constituição da República de Weimar. Foi diretor da revista Arquivo de Ciências Sociais e Política Social e colaborador do Jornal de Frankfurt. Seus trabalhos mais importantes se relacionam com a sociologia da religião e o governo, além da economia. Os primeiros trabalhos de Weber estavam relacionados com a sociologia industrial, mas são mais conhecidos seus últimos trabalhos sobre sociologia da religião e sociologia do governo.

Em uma de suas obras mais conhecidas, A política como vocação, Weber definiu o Estado como uma entidade que possui o monopólio no uso legítimo da força, uma definição fundamental no estudo da ciência política moderna. Em 1905 publicou seu ensaio A ética protestante e o espírito do capitalismo, que se converteu em seu trabalho mais conhecido. Em 1917 escreveu uma série de artigos na imprensa intitulados Parlamento e governo em uma Alemanha reconstruída, onde tece várias considerações sobre a burocracia e a política. Uma parte significativa dos estudos organizacionais tem origem em seus trabalhos sobre a burocracia. Morreu de pneumonia em 1920. Muitos de seus trabalhos, que se tornaram clássicos das ciências sociais, foram reunidos, revisados e publicados postumamente. Principais trabalhos: A ética protestante e o espírito do capitalismo (1905); A ciência como vocação e a política como vocação; Economia e sociedade (obra póstuma, publicada em 1922); Estudos sobre a sociologia da religião (1921).

Na década de 1950, ainda destacam-se como contribuição à Sociologia das Organizações, além dos já citados, os trabalhos de Robert K. Merton (Estrutura burocrática e personalidade), Talcott Parsons (Sugestões para um tratado sociológico da teoria da organização), Philip Selznick (Fundamentos da teoria da organização) e Peter M. Blau (A dinâmica da burocracia), entre outros, que foram reunidos por Etzioni no livro Complex organizations publicado em 1961. (Esse livro foi publicado em português com o título Organizações complexas: um estudo das organizações em face dos problemas sociais – ETZIONI, 1973).

TALCOTT PARSONS (1902-1979)

Sociólogo norte-americano. Cursou a London School Economics (Inglaterra) e a Universidade de Heidelberg (Alemanha). Lecionou Sociologia na Universidade de Harvard de 1927 a 1974, foi diretor do Departamento de Sociologia dessa universidade (1944). Depois foi nomeado presidente do Departamento de Reações Sociais (1946) e posteriormente presidente da Sociedade America na de Sociologia (American Sociological Society), em 1949. Considerado como o criador do Estrutural-funcionalismo, teoria social que sustenta que as sociedades tendem a se auto-regularem e apresentam interconexão dos seus diversos elementos (valores, metas, funções etc.). A auto-suficiência de uma sociedade está determinada pelas necessidades básicas, entre as quais se incluem a preservação da ordem social, o abastecimento de bens e serviços e a proteção da infância. Entre suas principais obras estão: A estrutura da ação social (1937); O sistema social (1951); Estrutura e processos nas sociedades modernas (1960); Teoria sociológica e sociedade moderna (1968); e Política e estrutura social (1 969).

Nesse mesmo período, um coletivo de intelectuais de diferentes disciplinas reunidos no Instituto Tavistock construiu um modelo sociotécnico de análise organizacional apresentado num relatório técnico elaborado por Frederick Emery em 1959 e, posteriormente, publicado por Emery e Trist em 1960, que incorpora os aspectos sociais e técnicos numa perspectiva de estudo das organizações como sistemas abertos.[Cf. Emery (1959) e Emery e Trist (1960)].

Algumas limitações dos estudos sociológicos das organizações que vinham sendo feitos até então foram apontadas por Etzioni no final da década de 50, afirmando que:

“Com relação ao efetivo estudo das organizações, pode-se dizer — e isto se aplica também à sociologia de organizações econômicas — que a maioria dos estudos tende a focalizar a unidade organizacional e as inter-relações entre seus elementos e evidenciam uma tendência para negligenciar suas relações com outras unidades sociais, mesmo as significativas, como outras organizações e coletividades. Frequentemente, dá-se ênfase às características genéricas e aos processos de unidades da organização, e não às estruturas específicas e aos processos dos vários subtipos da organização.”(Etzioni 1973, p.140).

Considerava Etzioni que a sociologia organizacional era potencialmente capaz de desenvolver bases sadias para um estudo geral e comparativo das organizações. Considerava que, embora houvesse diferenças significativas entre vários tipos de organizações, como igreja, exército, universidade, fábrica e sindicato, “os sociólogos acharam que era útil encarar todos estes organismos como tendo problemas comuns, que poderão servir de base para um debate generalizado de organizações, e também para diferenciar as várias estruturas organizacionais”. Etzioni (1973, p. 136).

Durante essa fase inicial, as críticas às antigas teorias organizacionais (a Escola Clássica e a de Relações Humanas) foram muitas vezes contundentes, como a que o sociólogo Michel Crozier expôs no início da década de 1960, onde afirma:

“Os racionalistas da organização científica clássica não consideravam os membros de uma organização como seres humanos mas como simples engrenagens de uma máquina. Para eles um operário era somente uma mão. O movimento que tomou como tema as relações humanas permitiu demonstrar que a visão passada era parcial por seu alcance e por seu espírito e que os operários executantes eram seres cujos sentimentos eram afetados diretamente como consequência das decisões racionais tomadas por cima deles. Mas um ser humano não dispõe só de uma mão e um coração. E também uma cabeça, uma projeção, uma liberdade. Isto é que descuidaram os teóricos das relações humanas tanto como os da organização científica do trabalho, e o que explica seus fracassos, a hostilidade com que foram recebidos embora tenha sido positiva sua contribuição e a excelente intenção de muitos deles” (Crozier 1969, p. 19).

Durante esse período de formação que se iniciou na década 1950 e se estendeu até os anos 1980, os sociólogos perseguiram uma variedade de tópicos, mas o seu mais distintivo e consistente foco estava na determinação da estrutura organizacional, como podem ser mais bem descritos os diferentes traços das organizações e que forças estavam formando estas características. Scott (2004).

1.4 O campo da sociologia das organizações

A questão organizacional é uma das dimensões centrais da empresa, e é por isso que a sociologia das organizações se ocupou desta instituição muito mais que outros ramos da sociologia. De fato os estudos organizacionais, de um modo geral, são feitos sobre e para as empresas. No entanto, o objeto da Sociologia das Organizações não se esgota na empresa, mas se estende a todas as organizações, incluídas aquelas cujos objetivos e funcionamento são claramente disfuncionais para a sociedade (como as organizações criminosas, por exemplo).

Ainda na profícua década de 1950, Etzioni considerava que a Sociologia Organizacional focalizava o estudo das organizações de acordo com quatro pontos de vista:

  1. As organizações são analisadas como unidades sociais, e o interesse se divide entre o estudo da estrutura formal e o da não formal.
  2. O estudo das organizações aborda a relação de uma estrutura organizacional, como unidade, com outras estruturas de organizações, e com unidades sociais que não são organizações (coletividades), tais como: família, comunidades, grupos étnicos, classes sociais e a própria sociedade.
  3. As organizações são analisadas do ponto de vista de suas relações com a personalidade e a cultura. Quanto à personalidade, relacionam-se com as necessidades da estrutura organizacional e as necessidades das personalidades dos participantes. O estudo das relações da organização com sistemas culturais abrange, por um lado, as orientações de valor, as fontes de legitimação da autoridade e as relações dinâmicas entre os ideais e objetivos da organização e as necessidades da própria estrutura organizacional, e por outro lado envolve os meios pelos quais o conhecimento é adquirido e institucionalizado dentro das organizações.
  4. A relação entre as organizações e o meio ambiente incluiria o estudo do comportamento das organizações relacionado com a capacidade biológica e fisiológica, inclusive as necessidades dos participantes e o estudo das respectivas adaptações entre a organização e o ambiente geográfico e físico.

Essa ideia geral do campo de abrangência da Sociologia das Organizações constituiu contribuição importante para a delimitação do objeto de estudo.

Para Dean Champion, embora diversos temas diferentes “prevaleçam como subabordagens dentro do campo da sociologia, de modo geral se aceita que os sociólogos enfoquem a estrutura e o funcionamento dos sistemas sociais” dentro de uma variedade de contextos organizacionais. E conclui afirmando que “a interação social é o alvo principal da indagação sociológica”. Reconhece que a interação social nas organizações envolve indivíduos com diferentes configurações de personalidade e que, “em parte, diversas implicações da estrutura organizacional têm origem em tais fatores”. Champion (1985, p. 3). Neste livro, especificamente, o autor estuda as organizações formais do ponto de vista sociológico.

Para alguns autores, a Sociologia das Organizações tem como conteúdo central o estudo de cinco grandes características que são encontradas em todas as organizações: alguns objetivos específicos que orientam os outros aspectos estruturais e funcionais; uma rede de posições ocupadas por indivíduos substituíveis; uma dedicação responsável às tarefas de sua posição por parte dos indivíduos que a ocupam; uma estrutura ou sistema estável e coordenado de relações entre as diferentes posições; e um ou mais centros de poder que controlam a atividade da organização e a dirigem para a realização de seus objetivos.

Atualmente, podemos afirmar que, especificamente, a sociologia organizacional se preocupa em estudar as formas organizacionais como sistemas sociais em contínua interação com o seu ambiente externo, que gera efeitos em seus processos internos (os indivíduos, suas interações, comportamentos, processos sociais básicos, relações de poder etc.) e na organização como um todo.

Nesse contexto, e a partir da perspectiva, interesse e metodologia adotada pelo pesquisador, a sociologia pode abordar o fenômeno organizacional de três modos distintos, tendo como referência básica: o indivíduo, a organização e a ação da organização na sociedade.

Do ponto de vista do indivíduo, os problemas objeto de estudo são aqueles que dizem respeito às pessoas que pertencem à organização, ao tipo e grau de participação, seu comportamento, motivação, cultura adquirida, identificação com a organização etc.

Quanto à organização, trata-se de considerá-la um todo complexo, e o seu estudo foca a estrutura (hierárquica, física, de dominação, das relações de poder), os diversos subsistemas que contém (técnico, de normas, entre outros), a ideologia, os fins, objetivos e metas. Incluem-se nesse referencial, também, os processos de cooperação, os conflitos, a comunicação, a influência do ambiente externo na organização, entre outros.

O terceiro modo de se abordarem as organizações é considerá-las enquanto atores sociais, partindo-se do pressuposto de que são agentes ativos de transformações (sociais, econômicas, culturas etc.) que podem incluir tanto mudanças como manutenção de determinado status quo. Trata-se, em resumo, da ação organizacional no seio da sociedade, da relação com seu público externo, com as instituições públicas, privadas e do terceiro setor, e da comunidade que vive em seu entorno imediato.

A sociologia das organizações tem como propósito explícito descrever experiências particulares que permitam generalizações que produzam explicações e contribuam para prever situações que possam ser controladas. Este é um processo de pesquisa próprio da sociologia das organizações, que parte muitas vezes do estudo de caso, identificando fenômenos, buscando a sua compreensão e elaborando conceitos. Esses estudos devem contribuir para a elaboração de teorias que possibilitem o diagnóstico e explicação de determinados processos organizacionais, que irão contribuir para a melhora da gestão organizacional.

A abordagem adotada neste livro será contextualizada, no sentido de que as organizações, sejam elas quais forem, somente podem ser compreendidas se as considerarmos como integrantes de uma estrutura social maior (a sociedade). A sociedade as condiciona em seus fins, estrutura e processos e por sua vez pode torná-las importantes protagonistas de transformações (seja como obstáculos ou propulsoras) de fins coletivos de diferentes grupos sociais.

Esta abordagem contextual das organizações é importante porque se opõe à visão mecanicista, que pressupõe que o que acontece dentro das organizações (tanto os processos, como o alcance de seus objetivos) se deve exclusivamente à forma adotada (de estrutura, de design, por exemplo) ou à condução hábil de um gestor. Nossa abordagem, portanto, considera que as organizações sempre estão em contínua interação com o seu meio e são condicionadas por este.

Nessa linha de pensamento, e para estudos posteriores, consideramos de suma importância comparar as novas e antigas formas de organização no Brasil. Pois a importação de ideias no âmbito das teorias de administração tem desconsiderado o processo histórico de configuração das organizações nacionais, a cultura onde estão inseridas etc.

A Revolução Industrial, processo fundamental na configuração das modernas organizações, ocorreu em tempos diferentes nos diversos pontos do planeta. Nos países sul-americanos, chegou no final do século XIX e início do XX, ainda em sua fase inicial, quando os Estados Unidos da América e Europa entravam na fase da segunda Revolução Industrial. Em decorrência, aqui as organizações tiveram diferenças na criação de culturas organizacionais, nas relações sociais internas, na concepção e papel das empresas na sociedade etc. Os fundadores de muitas empresas nacionais na primeira metade do século XX tiveram formação baseada num tipo de estrutura que Weber denominou de tradicional, patrimonialista em sua essência, onde viceja o nepotismo e relações informais de subordinação. Considerando, como veremos nos capítulos seguintes, que o fundador da organização é o que cria a cultura organizacional da mesma, podemos ter uma ideia das diferenças possíveis de serem encontradas em análises de situações específicas, através de estudos de caso que envolvam a história dessas empresas.

Neste contexto é que situamos a abordagem contextual, envolvendo o estudo das organizações inseridas num determinado processo histórico, evitando-se o transplante mecânico de estruturas científicas construídas nos países desenvolvidos e que surgiram como respostas válidas a problemas organizacionais dessas regiões.

Nosso objetivo neste livro é uma abordagem analítica das organizações, principalmente as econômicas, no contexto de seu surgimento, a sua expansão durante os séculos XIX e XX para todos os continentes e a sua funcionalidade referencial que permitiu que o modelo fosse copiado para outras áreas não empresariais, como as organizações governamentais, religiosas, militares, não governamentais etc.

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Sendo ex aluna do CESTE, posso afirmar que é Instituição séria e tem o compromisso em oferecer o melhor para os acadêmicos. Fiz complementação em Pedagogia e já estou atuando na área e muito satisfeita com a equipe que coordena esses cursos. Portanto, você que ainda não fez um curso superior, não perca tempo vem para o CESTE, porque aqui você realizará o sonho de mais um à ingressar no mercado de trabalho formado com certificado em mãos.

JOELMA ALVES MACIEL

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CLEITON MARTINS SILVA
O CESTE é uma faculdade humanista sintonizada com as novas exigências da educação no Brasil, no mundo, com os papéis da família e da escola nesse contexto, compõe a construção de uma nova realidade educacional. Como acadêmica dessa instituição, venho parabenizá-la pela dedicação para conosco.
ANA PATRÍCIA MAIA MARQUES

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