“O eterno retorno é uma ideia misteriosa, e Nietzsche, com essa ideia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente? O que significa esse mito insensato? O mito do eterno retorno nos diz, por negação, que a vida, que vai desaparecer de uma vez por todas, e que não mais voltará, é semelhante a uma sombra, que ela é sem peso, que está morta desde hoje, e que, por mais atroz, mais bela, mais esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor não têm o menor sentido.”

É assim que Milan Kundera inicia o primeiro parágrafo do romance A insustentável leveza do ser, emprestando de Nietzsche a teoria do eterno retorno para falar das relações entre seus personagens, o tempo e o ambiente em que vive. Todo escritor é um pouco filósofo, e todo filósofo é um pouco escritor, pois ambos possuem a crença de que palavras e ideias transformam a vida e por elas também são transformados. Um dos signos que representam esse pensamento fundido no imaginário humano é o Ourobouros, a imagem da cobra comendo seu próprio rabo, frequentemente usada pelos antigos como uma reverência a criação do universo, e segundo o Dictionnaire des symboles o ouroboros simboliza o ciclo da evolução voltando-se sobre si mesmo. O símbolo contém as ideias de movimento, continuidade, auto fecundação e, em consequência, eterno retorno. 

Durante a história, o eterno retorno de uma ameaça invisível se manifestou pela Peste Negra, a Cólera, Tuberculosa, Varíola, Tifo, Febre Amarela, Sarampo, Malária, AIDS, Gripe Suína e H1N1. E como seres humanos, constantemente nos esquecemos que estamos à mercê de um universo invisível aos nossos olhos que silenciosamente se reproduz e domina todos os espaços.

Foi talvez, pensando nessa vulnerabilidade humana, que Albert Camus, em 1947, publicou sua obra “A peste”. A obra é uma versão romanceada da filosofia existencialista

Camus era um existencialista e o existencialismo é uma linha filosófica que propõe a ideia de que a existência não possui significado e é por si só um absurdo, mas que o absurdo deve ser aceito, e todo o desespero deve coagir o ser humano a viver a vida de forma intensa e virtuosa, ele dizia que sua filosofia era: “Um lúcido convite a viver e criar, no meio do deserto.”

A obra fala da peste causada pela manifestação de um vírus em ratos, e depois em humanos na cidade fictícia de Oran, causando pânico e desespero entre os moradores, e narrada a partir do olhar de um médico. A percepção que ele busca passar a seus leitores por meio dessa obra é de que quando nos alienamos e entregamos nossa própria existência a uma obsessão por status, tendência a moralização e ao julgamento, a recusa da alegria simples, da gratidão, das banalidades grandiosas que nos fazem humanos, estamos negando o absurdo primordial de que por mais atroz e mais belo que seja, a vida vai acabar. E pode acabar em qualquer segundo. Com praga, ou sem praga, há sempre a possibilidade de algo acontecer e tudo mudar, e nossa vida, que é tudo o que temos, se tornar completamente sem significado.

Talvez essa visão soe pessimista, mas o que ele quis mostrar é que estamos na iminência de algo que mude as circunstâncias de tudo o TEMPO TODO. E não deveria vir como uma surpresa uma mudança repentina de circunstâncias, pois as instituições, o dia-a-dia e as relações nos dão a constante ilusão de que temos o controle de algo, ou que de fato entendemos a magnitude de uma estrutura tão complexa quanto a vida.

Os trechos abaixo dissertam um pouco sobre essa ideia:

“Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas desprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como nossos concidadãos; é necessário compreender, também, que ele estivesse dividido entre a inquietação e a confiança. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: “Não vai durar muito, seria idiota! E sem dúvida uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós.”

“Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada. Este próprio passado sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam fazê-lo, junto a esse ou aquela que esperavam — assim como a todas as circunstâncias, mesmo relativamente felizes, da sua vida de prisioneiros misturavam o ausente, e o resultado não podia satisfazê-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamos-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano faz viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a estas férias insuportáveis era, através da imaginação, recolocar em movimento os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campanha que, no entanto, se obstinava no silêncio.”

Soa familiar?

As circunstâncias nos empurram a uma visão Estoica, para sermos “Senhores de nós mesmos” em prol do coletivo, e por mais difícil que seja, temos uma oportunidade única em nossa existência humana de repensar sobre quem somos. Sem relativizar, sem dizer GRATIDÃO CORONA VÍRUS para milhões de pessoas como Gabriela Pugliesi (positividade tóxica é sobre isso, e falta de noção também), mas o que estamos vivendo é o reconhecimento do absurdo. Em coletivo, no mesmo tempo.

É um bom momento pra produzir arte e ciência, ou pra reaprender o que é não fazer nada, ou ajudar pessoas que você sabe que nessas circunstâncias estão desesperadas para sobreviver. São dias claustrofóbicos e estranhos. Um emaranhado de coisas. E em meio à tanta incerteza, podemos redefinir como queremos usar nossa voz.

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