Gestor também pesquisa: provoque-se a conhecer de verdade sua escola e a comunidade

Há algum tempo eu venho pensando em abordar o assunto da pesquisa na escola, da escola e pela escola. Além do tema ser muito importante e presente na minha atuação na gestão escolar, eu acredito que vivemos um momento propício para isso. No início do ano letivo, são discutidos e elaborados os projetos escolares, especialmente o projeto político pedagógico (PPP), são realizados os planejamentos para curto, médio e longo prazo e são definidos os planos de trabalho de todos os segmentos da escola: gestão, coordenação e equipe docente.

Entretanto, o fato de reconhecer a importância dos planos para cada segmento da escola não significa dizer que eles devam ser elaborados isoladamente e que não haja uma conexão entre eles. Ao contrário, a construção desse planejamento deve partir de um encontro de todos esses segmentos, de modo que os princípios da organização, os fundamentos teórico-metodológicos e as ideias sejam considerados multilateralmente. Afinal, a melhor maneira de alcançar os objetivos sociais e educacionais da ação pedagógica é por meio do trabalho coletivo, e a pesquisa pode ser um instrumento vital nessa construção.

Participação constante e verdadeira

O diálogo frequente entre equipe gestora, coordenação, professores, funcionários, alunos e a comunidade é a melhor estratégia para estabelecer a participação efetiva de todos nos processos pedagógicos e administrativos da organização escolar. A constante comunicação deve servir tanto para os profissionais da escola apresentarem os seus objetivos, demandas e solicitações de apoio, quanto para os alunos e a comunidade expressarem as suas expectativas em relação à escola, apresentarem os conhecimentos que detêm acerca do território e sobre as suas condições de existência, além de discutir, avaliar e participar nos momentos de decisão.

Assim, para que o diálogo seja realmente um processo em prol da construção de uma escola verdadeiramente democrática e não apenas conversas pontuais, os meios pelos quais a comunicação deve ocorrer são vitais. Dito de outro modo, para que as pessoas possam falar com segurança e entusiasmo é necessário criar mecanismos e múltiplos espaços de participação. Assim, todos serão considerados e os temas que importam começarão a ser realmente discutidos. Falo aqui da pesquisa como um mecanismo que vai prestar assessoria às instâncias democráticas de participação, e que pode trazer à tona informações importantes para a construção coletiva na escola.

Pesquisa: um espaço de diálogo

Quando se fala de mecanismos de participação não se pode esquecer daquele que é considerado um dos mais importantes e eficazes de que os educadores dispõem: a pesquisa.

É por meio desta metodologia de trabalho que se pode promover a investigação de fenômenos como a formação, as aprendizagens, a situação de fracasso dos estudantes, a indisciplina, a violência, a cultura escolar, medir os impactos dos marcadores sociais da desigualdade na escolarização (gênero, cor/raça e classe social), conhecer a realidade socioeconômica da comunidade escolar, só para citar alguns exemplos.

A pesquisa empírica pode ser uma forma de comunicação na comunidade e com a comunidade, assim como o levantamento de dados oferece os meios para se conhecer a realidade local. Afinal, a pesquisa permite o exercício de escuta, propicia a empatia, da voz às pessoas e dá lugar ao estranhamento.

Para que pesquisar?

Talvez, a melhor maneira de responder a esta pergunta seja invertendo a própria pergunta. Por que não pesquisar?

A escola é o lugar da pesquisa, assim como a pesquisa faz parte do processo de construção do conhecimento. Não há mais lugar para crer que o objeto a ser conhecido depende apenas da transmissão de informação do professor para o aluno e vice-versa. A investigação e o questionamento são as melhores ferramentas para assegurar a aprendizagem na escola, especialmente agora que os meios de comunicação, principalmente a internet, disponibilizam informações indiscriminadamente.

Além disso, a pesquisa é uma forma de resistência, porque ela permite questionar o óbvio ou as respostas fáceis, ela rejeita o senso comum, e desmascara o preconceito que tenta se afirmar como saber. A vida é mais enigmática do que aparenta ser e os fenômenos escolares são mais complexos do que parecem, e prescindir da pesquisa na escolarização de crianças, jovens e adultos é ignorar a beleza de ser educador/a.

Em relação aos projetos, eles serão tão mais consistentes se forem baseados em dados e informações extraídas da realidade da própria escola e da comunidade, e igualmente ancorados em referenciais teóricos que ajudem a interpretar tudo o que foi levantado, pois a pesquisa possibilita o exercício simultâneo da teoria e da prática no contexto escolar.

O que cabe à escola

A escola sempre foi o lugar da pesquisa e da investigação. No entanto, historicamente isso tem sido feito pelas universidades, que produzem conhecimento relevante para a formação dos estudantes de graduação e pós-graduação e, principalmente, para a Educação do nosso país. Apesar dessa prática investigativa já ter sido apropriada por educadores de algumas escolas, o seu uso é ainda muito restrito. O fato é que o pesquisador ligado à universidade faz da escola um campo de pesquisa, enquanto o educador tem esse campo de pesquisa como o seu genuíno local de trabalho, o que o torna um etnógrafo por natureza.

Não quero alimentar uma disputa ou dar a entender que há uma dicotomia entre o trabalho da universidade e o trabalho da escola. Ao contrário, afirmo que a universidade, sobretudo a universidade pública, tem muito a construir em parceria com a escola e vice-versa. Acredito que a escola é o lugar legítimo do trabalho da universidade, assim como a universidade é o lugar dos educadores da escola pública.

Como fazer uma pesquisa na escola

Seja em parceria com a Universidade ou com seus próprios meios, a escola deve lidar com os temas/problemas a partir de um movimento de estranhamento coletivo, ainda que os seus profissionais conheçam e dominem a prática escolar.

Entender a necessidade da pesquisa para compreender adequadamente os temas do universo escolar passa, necessariamente, pela percepção de que esses fenômenos devem ser desnaturalizados. Isso exige métodos de investigação com etapas bem definidas, como:

a) a definição do tema/problema;
b) o levantamento de hipóteses e causas que dão origem ao problema;
c) a formulação de perguntas claras e objetivas sobre o tema/problema de pesquisa.

Um exercício de pesquisa

Vamos usar o exemplo da indisciplina, que é muito comum e recorrente nas escolas. Desnaturalizar a indisciplina na escola significa que para lidar com esse tema/problema de pesquisa não basta saber que há indisciplina na escola, quem são os alunos mais frequentes na indisciplina e criar um código de punições (advertências, ocorrências, convocação dos responsáveis, suspensões ou até mesmo expulsões).

É desnecessário dizer que isso existe em muitas escolas e nem por isso elas deixam de ter indisciplina. Encarando a indisciplina como um problema para se aventurar na pesquisa empírica, inicialmente se faz algumas perguntas: O que é indisciplina? Que disciplina queremos na escola? Quais são os tipos de indisciplina que acontecem na escola? Quem são os sujeitos da indisciplina – são os meninos e as meninas, são todos os meninos, que tipo de masculinidade ou feminilidade é afirmada pelos/as indisciplinados/as?

Feitas as perguntas, lista-se as hipóteses que podem explicar as origens ou as bases do problema, como saber se há uma relação da indisciplina com o desempenho escolar, especialmente com a repetência, se a indisciplina implica em uma relação de poder na escola ou na sala de aula e que exige uma forma de ser menino ou menina, se a percepção da indisciplina dos professores tem relação com as suas noções de gênero e/ou de masculinidades e feminilidades etc. A partir disso, o grupo faz o levantamento dos dados de pesquisa e interpreta esses dados para produzir os resultados da investigação.

Uma pergunta que pode suscitar disso tudo é: como é que o professor vai fazer isso tudo na sua própria sala de aula? Nesse caso, em qualquer escola o olhar estrangeiro e desnaturalizado é fundamental e, nesse sentido, a observação na sala de aula deve ser feita, por um tempo determinado e sistematicamente, por alguém que não pertence a ela, como o coordenador pedagógico, um professor designado para isso, o diretor, etc. Evidentemente isso deve ser fruto de um trabalho coletivo e integrado que tem como base o respeito e a confiança, e não a vontade de fiscalizar ou desqualificar o trabalho docente. O trabalho com pesquisa supõe a atuação harmônica entre todos os segmentos da escola e isso significa que as hierarquias devem ser momentaneamente suspensas.

Para além desse pequeno exemplo, a pesquisa se constitui em uma ferramenta útil para encarar os grandes temas da Educação e da escola, bem como ajuda a escola a entender os processos que ela mesma cria e a perceber também aquilo que ela, em grande medida, reproduz. Nessa perspectiva, para a elaboração de um projeto político pedagógico consistente, a utilização de práticas investigativas é fundamental, especialmente para se chegar aos diagnósticos necessários para a definição do tema/problema do PPP.

Claudio Marques da Silva Neto é diretor da EMEF Infante Dom Henrique, em São Paulo. Tem experiência em direitos humanos, formação docente, cultura escolar, indisciplina, violência e gênero. É mestre e doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo (USP

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