O papel do psicólogo escolar

O papel do psicólogo na escola é mostrar aos professores, baseando-se nas ideias da psicologia sócio-histórica, a importância que eles têm para constituir a personalidade de seus alunos. Ou seja, mostrar-lhes que as suas atitudes, relações, afetos, comportamentos com eles farão parte do que os constituirão como pessoa, ou seja, determinarão as suas personalidades.

É necessário o professor ter consciência que a subjetividade de seus alunos, assim de como qualquer outro ser humano, será formado nas suas inter-relações. São suas experiências cotidianas, os sentidos que cada um dá para elas, é que formará a sua individualidade.

Deve-se divulgar, levar o conhecimento de como se forma a subjetividade do aluno. Esta que, para a psicologia sócio-histórica, segundo Aguiar (2000) é formada através das apropriações que as pessoas fazem das objetivações dos seres humanos. Essas [objetivações] que são produtos da atividade social humana ao longo da história, por exemplo, linguagem, instrumentos. Assim, o ser humano a partir do momento em que se apropria das objetivações humanas com a indispensável ajuda de outro ser humano, transforma-as como seu, atribuindo sentidos a elas, se autoproduzindo e reproduzindo essas objetivações- a cultura humana. Diz Pan e Cols (2011) que os processos de objetivações e apropriações se constituem como mola propulsora tanto do desenvolvimento sócio-histórico da subjetividade, quanto do desenvolvimento da sociedade, do gênero humano (p. 8).

Assim, é importante que os professores entendam que a subjetividade do indivíduo é formada através de uma relação dialética entre subjetividade e objetividade. O indivíduo apropria-se das objetivações e atribui sentido a elas. Objetividade e subjetividade se determinam, se relacionam. Para Vigotski, citado por Pan e cols (2011) a construção da subjetividade individual se dá através do processo de apropriação do significado social e da atribuição de sentidos; o indivíduo converte o que é intersubjetivo para o plano intra-subjetivo e vice-versa.

Nesse pensamento há algo muito importante a se considerar, e sem dúvida nos impõe uma reflexão. Segundo a autora Aguiar, citando Goes (1992), cada indivíduo torna intra-subjetivo o que é intersubjetivo e torna intersubjetivo o que lhe é intra-subjetivo, entendemos que a maneira como as pessoas se relacionam conosco, como elas nos tratam, como elas nos caracterizam será apropriado por nós, quando atribuímos sentidos a isso. A maneira como nos relacionamos com o outro foi determinada também por nossas experiências interpessoais. Assim, pode-se pensar que a maneira como o professor trata o aluno será de suma importância para como ele tratará a si mesmo e como tratará as outras pessoas. Se um professor rotula um aluno de incompetente, irresponsável e desprovido de inteligência, poderá determinar que o aluno se sinta e se veja realmente como o professor lhe intitulou. Eis aqui, talvez, uma das causas da dificuldade de aprendizagem, pois, que aluno terá confiança em seus estudos e em suas potencialidades se há outro que lhe diz que isso não lhe cabe.

A noção de que o indivíduo para conseguir construir sua subjetividade depende do outro que lhe facilite, lhe transmita, direta ou indiretamente, as apropriações das objetivações humanas também é de suma importância. O indivíduo depende do outro para objetivar essa apropriação. Dessa forma deve ser entendido que não há subjetividade sem que intersubjetividade, segundo Pan e Cols (2011). O aluno para poder aprender, objetivar o que o professor lhe ensina, necessita que este consiga mediar essa apropriação. Cabe ao professor transmitir o conhecimento ao aluno de maneira que ele consiga apropriar dele. Não há aprendizado na escola sem professor, assim, este tem um papel importante no desenvolvimento intelectual do aluno e se os alunos não têm bom rendimento escolar, cabe ao professor também rever a parte que lhe cabe nesse baixo rendimento estudantil. Ambos, professor e aluno fazem parte desse processo de objetivação do saber construído sócio-historicamente.

Cabe ao psicólogo escolar mostrar aos professores que a maneira como eles tratam seus alunos é importante. Levar o conhecimento de que a subjetividade do aluno está em constante formação, nas inter-relações, e que se o aluno não apresenta um bom comportamento isso não é algo inerente a ele, ou a um grupo que ele pertença, mas sim, foi construído no seu contexto histórico, e determinado por ele.

Assim, a subjetividade do aluno, da pessoa, é vista como unidade do diverso (de todas as suas relações), síntese de múltiplas determinações, indissociável da intersubjetividade (relações entre os homens), construída pela sua apropriação da cultura humana, ou seja, resultado da atividade social humana (das objetivações humanas-linguagem, instrumentos, utensílios, comportamentos, pensamentos), segundo Pan e cols (2011).
Dessa forma, mostra-lhes que o homem é um ser social, construído. Ele não nasce com as suas características individuais, com suas potencialidades, inteligência, deficiências e limitações, pois, antes de construir sua subjetividade ele se encontra em um contexto coletivo, onde necessita apropriar da cultura humana. São suas experiências e os sentidos atribuídos a ela que formará a sua maneira de ser, sua subjetividade, esta determinada pelo seu meio e pelos sentidos do sujeito, pertencente a um contexto político, econômico e historicamente construído.

Podemos pensar, então, no fracasso escolar não como um problema do indivíduo, algo inerente dele, mas fruto das relações que ele mantém e manteve em seu desenvolvimento. Cabe ao psicólogo escolar, segundo Checchia (2003) promover reflexões a respeito de práticas sociais e escolares que produzem os problemas de aprendizagem; se perguntar quem é este sujeito escolar, de onde veio, como estudou, quais oportunidades teve, quais os professores passaram por sua história e como se deu essas relações. Além de tentar despertar a reflexão dos vários fatores que interferem na produção da queixa escolar, procurando entender qual o local que o aluno se insere na relação com a escola. Possibilitar que o professor considere a importância da sua relação com o aluno na construção da sua subjetidade e remover obstáculos da aprendizagem. Entendendo que problemas de aprendizagem devem ser entendidos no conjunto de relações institucionais, históricas, psicológicas e pedagógicas que constitui a escola.

Para Meira (2003) o psicólogo escolar deve criar condições para que os docentes repensem e problematizem suas práticas; ajuda-los na compreensão do importante papel que tem como agentes da história; auxiliar na compreensão crítica em relação ao psiquismo, desenvolvimento humano, e de suas articulações com a aprendizagem e as relações sociais.

Acreditamos que esta visão de homem (ser construído pelas e nas suas relações) é de suma importância para que os professores não culpabilizem os alunos pelos seus fracassos escolares, atribuindo a eles limitações ou deficiências. Assim, o professor pode se ver envolvido nesse processo de educação, assim como também ser responsável pelo fracasso de seus alunos. Não com o intuito de retirar a responsabilidade do aluno, da família, e atribuí-la aos professores, mas, mostrar-lhes que professores também determinam, nas suas maneiras de relacionar-se com o aluno, o modo de ser dele.

Dessa forma, o psicólogo atribui ao professor a importância de sua atividade na formação da constituição da subjetividade do sujeito. Transmitindo, assim, o pensamento de que a inter-relação aluno-professor é essencial para o fracasso ou sucesso da educação. Além disso, cabe ao psicólogo mostrar aos próprios alunos, quando possível, que eles também têm um papel ativo na sua própria educação, e são responsáveis pelas apropriações que fazem, através das mediações dos professores.

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