Professor de Ciências também pode ensinar leitura

Este ensino poderá levar o aluno a interpretar o mundo natural, superando as dificuldades da leitura dos textos da disciplina

São comuns, nas aulas de Ciências do Ensino Fundamental, reclamações dos estudantes em relação à compreensão dos textos. Os professores, na maioria das vezes, atribuem esse fato à falta de habilidade de leitura dos alunos. Assim, frequentemente, ouvimos dos professores de ciências: os estudantes não sabem ler. Entretanto, precisamos investigar: o que os alunos não sabem ler? Quais atividades de leitura são realizadas nas aulas de Ciências? Como são realizadas? Quais as estratégias de leitura são utilizadas pelo professor para mediar a leitura?

De início, podemos dizer que os professores podem sim ajudar os alunos a enfrentarem essas dificuldades, ensinando-lhes a ler nas aulas de Ciências. Nessas aulas, a contribuição do professor para o desenvolvimento da competência leitora dos alunos abrange o entendimento da leitura como objeto de ensino e ferramenta de aprendizagem.

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Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) relativos a Ciências Naturais (BRASIL, 1997) a leitura é um procedimento importante para a construção do conhecimento e o professor deve orientá-la usando diversas fontes nas aulas de Ciências. Segundo esse documento, a maior parte das informações científicas é obtida por meio da leitura. Sendo assim, atividades de leitura podem contribuir para aproximar o aluno do conhecimento científico-tecnológico. Para isso, cabe ao professor, desde as séries iniciais, proporcionar aos alunos o contato com os mais variados textos informativos, incentivando a leitura e a compreensão desses textos.

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A leitura nas aulas de Ciências é um procedimento importante para aproximar os estudantes dos conceitos da área, para organizar, sistematizar e ampliar informações. Contudo, nessas aulas, as atividades que envolvem práticas de leitura, embora constantes, não parecem ser planejadas nem seguir objetivos intencionais. Concordam? Nesse sentido, apesar de o professor fazer uso dos textos, habitualmente ele não os considera como conteúdo a ser ensinado (ESPINOZA, 2006). É comum a crença de que ensinar a ler é tarefa das aulas de Língua Portuguesa, logo foge dos objetivos das aulas de Ciências.

No entanto, é através da leitura de textos de Ciências que os alunos se apropriarão da gramática e das formas de organização usadas na escrita científica, permitindo-lhes falar a linguagem da ciência. Essa tese é reforçada por Garcia e Lima (2013), ao entenderem que ensinar Ciências também é ensinar a ler textos de Ciências, pois a linguagem escrita utilizada nessa esfera apresenta signos próprios. Esses autores chamam a atenção para o abandono da leitura nas aulas dessa disciplina, especialmente do livro didático, nos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.

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Nessa direção, Lemke (1997) chama de aprendizagem da língua da ciência, a aprendizagem dos termos específicos da ciência por parte dos alunos, ou seja, a maneira particular de empregar e relacionar os termos, a aprendizagem do significado das metáforas e das representações. O ensino nessa direção poderá levar o aluno a interpretar o mundo natural, superando as dificuldades da leitura dos textos de Ciências. Esse autor explica que falar ciência é uma forma particular de unir as palavras, formular perguntas, argumentar, generalizar, o que permite a pessoa estabelecer relações e construir um sentido particular do que se diz.

Para esse autor, aprender a falar ciência é semelhante ao processo de aprendizagem de qualquer língua estrangeira. No ambiente social habitual, as pessoas aprendem a falar a língua diariamente e, somente na escola, geralmente, ensina-se a fala e a escrita da linguagem científica. Uma característica desse tipo de linguagem é o vocabulário específico. A precisão dessa linguagem é um ponto muito importante.

Interpretação

Espinoza, Casamajor e Pitton (2009) destacam a importância da interpretação pelo aluno dos textos durante as aulas de Ciências. Para essas autoras, grande parte das interpretações realizadas pelos leitores depende da autonomia do leitor tanto para ler e assumir os riscos de sua leitura, de suas interpretações, quanto para verificar e monitorar os sentidos que são construídos na interação com o texto. A leitura de um texto pode se tornar uma imposição quando os alunos buscam somente as interpretações que interessam ao professor, já que serão solicitadas em uma avaliação. Assim, esse controle de significados por parte do professor pode acarretar inibição e até falta de estímulo do aluno perante a leitura.

Por sua vez, Martins (2002), chama a atenção das imagens presentes nos textos de Ciências. Elas são importantes recursos para a comunicação de ideias científicas. Além da indiscutível importância como recurso para visualização, contribuem para a inteligibilidade de diversos textos de Ciências, desempenhando um papel fundamental na constituição das ideias científicas a na sua conceitualização.

Ensinar os estudantes a ler os variados tipos de materiais de Ciências e estabelecer metas claras para cada etapa de ensino são tarefas das instituições de ensino. A escola é o lócusprivilegiado para a construção do conhecimento científico e do ensino de atalhos e caminhos da leitura. Você, professor de Ciências, já parou para pensar se está ensinando seu aluno a ler? E de que forma?

*Sheila Alves de Almeida é doutora em ensino de Ciências pela USP e professora do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Por 15 anos, foi professora de ensino fundamental em Belo Horizonte. Jane Aparecida de Oliveira é mestre em ensino de Ciências e professora da rede estadual de Ouro Preto

FONTE REVISTA ESCOLA

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