50 anos depois, teríamos em 2018 a reedição de um “ano que não terminou”? (por Glauber

Glauber Gularte Lima (*)

Talvez a iminente condenação de Lula e sua possível inelegibilidade provoque algo que jamais esses golpistas e traidores do Brasil imaginaram”.

O escritor e jornalista Zuenir Ventura lançou em 1989 a sua mais reconhecida obra literária, intitulada 1968 – O ano que não terminou. Nela, aborda os sonhos e ilusões de toda uma geração de intelectuais e militantes de esquerda que aos poucos foi sendo sufocada por um regime de exceção instituído quatro anos antes (1964). Naquele período, mesmo já sob uma ditadura civil-militar, havia ainda a vã esperança de derrotar o regime, restabelecer a democracia que agonizava em seu leito de morte e lançar as bases de uma nova sociedade. Vivia-se o sonho mágico de poder realizar no gigante Brasil um assalto aos céus semelhante ao que foi a heroica vitória da Revolução Cubana. Era o período da chamada Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, que disputavam na arena da geopolítica mundial as áreas de influência para seus projetos distintos de sociedade.

Todas essas veleidades deitaram por terra quando no dia 13 de dezembro de 1968 o senhor Artur da Costa e Silva, Marechal do Exército ungido presidente pela mão de ferro da ditadura, baixou o Ato Institucional Nº 5, que entrou para a história como o AI-5. Através desse revolucionário instrumento de exceção democrática, o regime abriu as portas do inferno. Com o fim dos direitos políticos e a suspensão do habeas corpus, a vanguarda da resistência de esquerda foi assassinada, banida ou condenada a mofar nos calabouços após intermináveis sessões de torturas realizadas nos subterrâneos do sistema.

Absolutamente necessário lembrar Marx em O 18 de brumário de Luís Bonaparte, quando afirma que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Nunca tive vocação para profeta do apocalipse, mas os sinais no horizonte do período atual não são muito alentadores para as forças que ainda professam o culto ao Estado Democrático de Direito, apunhalado desde o golpe que destituiu a presidente Dilma Rousseff. As elites brasileiras, forjadas no colonialismo e no escravismo, não estão nem aí – e nunca estiveram – para a democracia. O melhor regime é aquele que lhes assegure o poder secular de mando sobre uma multidão de pobres subjugados aos seus interesses. Brincaram de democracia até perder a quarta eleição consecutiva, e então resolveram mostrar quem é que efetivamente manda.

O sociólogo Emir Sader já alertava em seu célebre ensaio O poder, cadê o poder?, que a esfera de representação política estatal é uma parte muito pequena do poder real, que emana da correlação de forças econômicas e sociais. Esse poder real está nas mãos de quem controla a vida econômica do país, especialmente o sistema financeiro; no controle dos principais meios de comunicação, hoje nas mãos de meia dúzia de famílias que concebem o Brasil como uma colônia do século XVI; na posse da terra, concentrada até hoje nas mãos de latifundiários cujas concepções de direitos sociais e trabalhistas nada ficam a dever às dos senhores feudais da Idade Média; na absurda concentração de renda, que torna o Brasil uma das nações mais desiguais do planeta; na transformação de juízes em agentes da tirania, com poderes semelhantes aos de monarcas e, por fim, como salvaguarda última, no aparato estatal das forças armadas, onde a esquerda nacionalista, após a ditadura militar, passou a ter uma influência insignificante.

Lula e Dilma, quando governaram, apesar dos extraordinários avanços sociais obtidos (suficientes para eternizá-los como grandes figuras da história pátria), não encostaram um dedo sequer nesses poderes cristalizados. Mas mesmo assim, o ódio de classes, o pavor aos pobres frequentando lugares antes reservados aos “bem nascidos”, produziu essa histeria que deslocou o eixo da sociedade da evolução democrática gradativa para o regime de exceção.

Alguém dirá que o mundo mudou. É verdade. Eu acrescentaria: para pior. Vão longe os tempos em que os EUA estavam até o pescoço atolados em seus objetivos de invasão do Oriente Médio para controle de seus recursos naturais, a ponto de secundarizarem seus interesses históricos de domínio econômico sobre a América Latina. Além disso, hoje observamos o retorno de mais um fundamentalista ultraliberal ao comando da Casa Branca, que desde que assumiu a presidência dos Estados Unidos só sabe vociferar ameaças cotidianas a meio mundo e ampliar extraordinariamente os gastos militares, sinalizando uma nova onda de expansão imperialista e domínio de mercados. Nesse contexto, é visível a retomada de uma ofensiva de grande envergadura de agentes oficiais ou não desse império atuando para a desestabilização de governos progressistas na América Latina, a fim de eleger presidentes alinhados com seus interesses econômicos.

É uma outra conjuntura internacional. E é nela que se insere a brutal perseguição a Lula, que terá um de seus capítulos mais decisivos no próximo dia 24 de janeiro, na cidade de Porto Alegre, através do julgamento em segunda instância na sede do Tribunal Regional Federal da 4ª Região – TRF4.

O problema é o que fazer para além dos limites impostos pela farsa em que se transformou o jogo democrático neste país. Vivemos a crônica de uma sentença anunciada, e todos os movimentos desse conluio articulado em torno da Lava Jato têm o único objetivo de condenar novamente sem provas e banir definitivamente da vida política do país simplesmente a maior liderança popular da história do Brasil! Tudo isso feito embaixo dos olhos daqueles que deveriam preservar a Constituição e a ordem democrática, violadas diante do silêncio cúmplice e vergonhoso da mais alta corte da nação.

Não sabemos se 2018 não terminará. Apesar de tudo, a História nunca foi e jamais será uma linha reta traçada pelos donos do poder. Continua, com seus caminhos turbulentos, a ser uma página em branco ainda por ser escrita, tensionada pela luta dos povos pelos seus direitos. Talvez a iminente condenação de Lula e sua possível inelegibilidade provoque algo que jamais esses golpistas e traidores do Brasil imaginaram. Talvez…

Um passo decisivo pra acalentar esse sonho é estarmos todos em Porto Alegre no dia 24 de janeiro, de punhos erguidos, exigindo o fim do regime de exceção e o restabelecimento da democracia no Brasil.

Viva Lula!
Viva a heroica luta do povo brasileiro!

(*) Licenciado em Estudos Sociais, Especialista em Comunicação e Marketing.

Editoria: Opinião PúblicaPalavras-chave: 2018DilmaEleições 2018Golpegoverno Temerjulgamento de LulaLulaTemerTRF4

 

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