Versões modernas do “cretinismo parlamentar” e do “esquerdismo, doença infantil do comunismo” têm se manifestado intensamente nas movimentações dos partidos de esquerda e de centro-esquerda diante das eleições para as mesas diretoras da Câmara e do Senado. O “cretinismo” e o “esquerdismo” são duas tendências aparentemente opostas, ambas nocivas, mas que caracterizam uma parcela da esquerda brasileira e mostram que não será nada fácil para seus partidos articular uma estratégia comum, eficiente e eficaz, para derrotar Jair Bolsonaro e a extrema-direita.

Os que se enquadram no “cretinismo” e no “esquerdismo” têm uma característica comum: embora sejam radicalmente contra o governo de Bolsonaro e reconheçam seu caráter fascista, não o colocam, na prática do dia a dia, como o inimigo principal a ser derrotado. Parecem não compreender que impedir a continuidade de Bolsonaro no poder, seja pela aprovação do impeachment cada vez mais improvável ou derrotando-o nas eleições de 2022, é hoje a tarefa principal não só da esquerda, em seus diversos matizes, como de todos os democratas. E, se compreendem isso, não têm agido com coerência.

A derrota de Bolsonaro tem de ser construída passo a passo e para isso é essencial que os partidos de esquerda deixem de lado desejos subjetivos, retórica tonitruante e vaidades e façam a “análise concreta da situação concreta”, como recomendam autores que seus dirigentes e militantes ainda deveriam levar em consideração. É preciso entender e avaliar profundamente a realidade política, social, econômica e cultural, entender as contradições da sociedade brasileira e traçar a estratégia correta para superá-las. Ou seja, sair da bolha e cair na real.

Há inúmeras contradições em nossa sociedade, em diversos níveis, e todas têm de ser enfrentadas. Mas em cada momento apenas uma é a contradição principal, que precisa ser superada para que se possa superar as demais. Há na esquerda os que querem o socialismo, seja lá qual for o modelo, os que se contentam em derrotar o neoliberalismo, e outros que querem apenas justiça social e mais igualdade, ainda que nos marcos do capitalismo. 

Nenhuma dessas lutas prosperará, porém, se o fascismo bolsonarista se consolidar. Para os que reconhecem o conteúdo fascista de Bolsonaro e de seus seguidores e não ignoram seu declarado projeto de destruir as instituições democráticas, exterminar a oposição e impor um regime autoritário e fundamentalista, não pode haver dúvida de que a contradição principal que temos hoje é entre a democracia e o bolsonarismo. Entre civilização e barbárie.

Se Bolsonaro conseguir executar o projeto que anuncia desde antes de sua eleição — e não só por palavras, mas também por ações —, a esquerda será esmagada, as instituições serão demolidas, as políticas neoliberais terão via livre para se impor sem resistências e o capitalismo se fortalecerá com seus aspectos mais cruéis.

Por isso a tarefa principal, agora, é derrotar Bolsonaro. Esse deve ser, neste momento, o objetivo estratégico de toda a esquerda, do PSTU e do PCO até o PDT e o PSB, passando pela UP, PCB, PRC, PSol, PT, PCdo B, Rede e PV. Não importa se esses partidos almejam o comunismo, o socialismo, a social-democracia ou um capitalismo menos desumano e desigual e mais preocupado com o meio ambiente. Nenhum deles irá muito longe se o projeto bolsonarista prevalecer.

As estratégias e táticas políticas desses partidos teriam de estar, até por sobrevivência, alinhadas a esse objetivo estratégico em todos os campos de atuação, inclusive nas casas legislativas de todo o país. Mas, para isso, é preciso superar imediatamente o “cretinismo parlamentar” e o “esquerdismo infantil”. Nos parlamentos e fora dele. 

Juntos, os partidos de esquerda reúnem 25% dos 513 deputados federais e 12 dos 81 senadores. As diversas correntes de direita têm clara maioria na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Estão divididos em vários partidos e não são homogêneos em suas posições, que vão da direita democrática ao fascismo. Há, na direita parlamentar, os que apoiam Bolsonaro incondicionalmente, os que o apoiam pontualmente e os que querem derrotá-lo por ver nele uma ameaça à democracia ou a seus interesses. A polarização na sociedade se reflete nas duas casas legislativas.

A esquerda, portanto, não reúne parlamentares suficientes para aprovar, sozinha, o impeachment de Bolsonaro ou uma emenda à Constituição, e muito menos eleger os presidentes do Senado e da Câmara, que, como se sabe, são investidos de poderes quase imperiais. Só há duas alternativas para a esquerda: ou compor com algum candidato do bloco da direita ou apresentar candidato próprio apenas para marcar posição.

Se a contradição principal da esquerda hoje é com o bolsonarismo e a ameaça fascista que representa e se a tarefa principal é derrotar Bolsonaro em 2022 (se não for possível antes), o caminho para os partidos de esquerda parece claro: aliar-se ao candidato da direita que assuma claramente uma postura contra Bolsonaro e, adicionalmente, se comprometa a assegurar espaços políticos aos partidos de esquerda.

O mais importante é reforçar o combate a Bolsonaro, os espaços políticos vêm depois. No Legislativo, esses espaços são posições que permitem ao parlamentar ter mais influência política, visibilidade perante o eleitorado e cargos na estrutura das casas, para melhorar seu desempenho ou simplesmente agraciar amigos e correligionários. Com a boa vontade do presidente do Senado ou da Câmara, o parlamentar pode presidir comissões, relatar projetos importantes e conseguir alguns cargos adicionais — o que também consegue integrando as mesas diretoras.

Pois é em torno desses espaços políticos que os adeptos do “cretinismo parlamentar” querem decidir que candidato de direita apoiarão para presidir a Câmara. Ou seja, apoiarão quem lhes oferecer mais vantagens, não importa se o candidato seja o indicado por Bolsonaro, ansioso por ter um aliado seu em tão importante função, como tem sido o presidente do Senado, Davi Alcolumbre — e que teria o apoio de senadores da esquerda, caso pudesse se reeleger…

O presidente do PSB chegou a declarar que na eleição para presidente da Câmara “não tem ideologia, governo ou oposição”, o que importa são os postos na mesa diretora, as comissões e as relatorias. E assim, sem temor de mostrar o fisiologismo e oportunismo típicos do “cretinismo”, procura justificar o absurdo apoio de seus deputados ao candidato bolsonarista a presidente da Câmara, que além do mais é notório corrupto.

Já os “esquerdistas” se opõem a qualquer aliança com direitistas, mesmo se for para impedir os avanços bolsonaristas no Congresso e desgastá-lo até 2022. Alegam que são todos golpistas, neoliberais, defensores de medidas contra o povo e os trabalhadores — e nisso estão certos. Mas com essa postura deixam de lado o principal, que é o fim do poder de Bolsonaro. Porque entre os golpistas, neoliberais e defensores de medidas contra o povo e os trabalhadores, estão os adversários de Bolsonaro que querem vê-lo fora da presidência. E nisso coincidem com o que quer a esquerda.

Não é difícil entender com um exemplo: o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é um neoliberal declarado, que defende as reformas antipovo e que impediu a tramitação de um processo de impeachment contra Bolsonaro. Há contra ele fortes acusações de corrupção. Mas é inegável que Maia conteve o avanço bolsonarista na Câmara e por isso se tornou um dos maiores alvos dos seguidores do capitão.

Se a luta principal é contra Bolsonaro e não é viável ter um presidente de esquerda ou centro-esquerda na Câmara, melhor ter um Rodrigo Maia do que um adepto do capitão. O mesmo vale para o Senado e para as assembleias legislativas em todo o país. 

Com presidentes do Senado e da Câmara não alinhados com Bolsonaro, as pautas neoliberais serão votadas de qualquer maneira, pois há maioria mais que suficiente no Congresso para isso. As pautas conservadoras e fundamentalistas terão mais condições de serem derrotadas. E as pautas antidemocráticas e as que violam os direitos humanos e a diversidade certamente serão barradas.   

Não tem sentido a esquerda se isolar nas eleições para as presidências da Câmara e do Senado, para marcar uma posição que repercutirá apenas na bolha que acompanha essa movimentação política. Tem menos sentido ainda a esquerda apoiar candidatos de Bolsonaro em troca dos tais espaços (leia-se: cargos). Em ambos os casos, vítimas da doença infantil e adeptos do cretinismo parlamentar estarão ajudando Bolsonaro a se manter no poder e implantar suas políticas nefastas.

Por Hélio Doyle

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