Professor Correia

  Parodiando o texto de Luciano Lira na sua concordância com Luiz Fernando Veríssimo onde diz em sua crônica que o povo não presta, e que toda a ruindade do país resulta da existência do povo e que nós nunca temos culpa, peço licença também para concordar com o autor quando mesmo afirma ao cronista Veríssimo que seria incoerente   

Sempre os outros Nós nunca temos culpa atribuir tudo de ruim só ao povo.

O povo é aquilo mesmo, talvez até mais, porém não é o único responsável por tudo o que está errado. Temos os outros, que também não prestam.
Vejamos as últimas eleições presidenciais, todos queriam o PT no Governo ( queriam Lula, mesmo na cadeia ele era o preferido),mas na hora da verdade, lá vêm os outros e votam em Bolsonaro, agora que que o Brasil passou a ser de péssima referência no mercado estrangeiro, todos afirmam que a culpa é dos outros. A anarquia que reina no Congresso nada tem com o povo, que não vota leis. São os outros que votam. Os outros fumam nos ônibus e elevadores e nem se preocupam com as boas maneiras e preocupações. “Os outros que obedeçam”, dizem cinicamente os outros.

O povo não é corrupto. Não tem nunca essa oportunidade. Tudo fica para os outros. Só os outros têm acesso às mutretas de Brasília. Até aqueles deputados que foram eleitos pelo povo esquecem o povo na hora de aproveitar e só lembram-se dos outros.

Agora mesmo, com essa epidemia de do COVID19 quem é culpado do vírus ser transmitido tão rapidamente? Os outros, que não usam máscaras, só querem curtir nos bares da cidade e ainda fazem chacota dos outros. As filhas dos outros cedo, cedo se perdem e ficam passando a doença.

Vocês já observaram as greves de ônibus? Muitos motoristas e trocadores querem trabalhar, mas os outros não deixam. Fazem piquetes e ainda furam os pneus. O povo é culpado? Coisa nenhuma. O povo é vítima dos outros. Na escola, quem é mal comportado? Quem não sabe as lições? Os filhos dos outros, naturalmente, porque os outros não sabem educar os filhos.
Os outros são culpados de haver sonegadores, aproveitadores e picaretas, que se justificam dizendo que “se eu não fizer, os outros fazem”, “se eu não sonegar, os outros sonegam”… E assim por diante, numa prova indiscutível de quão perniciosos são os outros.

Quem é que não sabe votar? Quem fura as filas? Quem dirige sem cuidado, achando-se o dono das ruas só porque tem carro? Quem entra na contramão? Quem buzina quando abre o sinal verde? Quem gosta de dupla caipira?Quem fala na volta dos militares? Quem acreditou naquele choro da santa? Quem? Quem? Quem? Os outros, os outros e os outros. Ninguém mais!
Alguém já viu, ou teve notícia de acidente de trânsito que não seja provocado pelos outros? Nunca! Eu, quando viajo, nem me preocupo comigo, mas com os outros, que são irresponsáveis, ultrapassam nas curvas, guiam com excesso de velocidade etc. Os outros. Sempre os outros.

Quando o padre ou o pastor fazem suas pregações relacionados às obrigações dos casais na vida afetiva e sexual, a mulher olha para o marido com aquele sorriso no canto da boca e fala: isso não é para os outros, é para você.

Os outros são a nossa desgraça!

Mas quem são afinal, os outros? Devem ser entes sobrenaturais, pois nunca os outros se identificam. Todos criticamos ou nos escondemos por trás dos outros, todos nos projetamos outros os traços ruins da nossa personalidade, todos esperamos que os outros cumpram com nosso dever, mas ninguém diz quem são os outros. Os próprios outros não se reconhecem. Com certeza, lendo esta crônica, os outros vão achar que os outros a quem me refiro são os outros. Uma última acusação gravíssima: os outros plagiam os bons cronistas brasileiros. Esta crônica, por exemplo, parece coisa dos outros.

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