Jogo político embaralha pauta da greve dos caminhoneiros

A greve dos caminhoneiros passa em nossas cabeças Como um filme repetido, já rodado nas manifestações de junho de 2013, a  greve dos caminhoneiros começou com pauta específica, cresceu com o apoio popular, mas a adesão de diversos grupos ao movimento e a inclusão de temas alheios ao debate original transformou a paralisação em uma massa confusa e sem controle.

Líderes de entidades que deflagraram a greve dizem em diferentes partes do país que ela terminou, mas veículos de autônomos seguem parados nas rodovias e dezenas de grupos de extrema-direita se arvoram a pedir intervenção militar, eufemismo para ditadura.

– Não é mais o caminhoneiro que está fazendo greve. Tem um grupo muito forte de intervencionistas.  Estão prendendo caminhão em tudo que é lugar. São pessoas que querem derrubar o governo. Os caminhoneiros não tem nada   a ver com essas pessoas. Mas estão sendo usados para isso – afirmou na segunda-feira (28), em entrevista coletiva, José da Fonseca Lopes, presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), uma das principais entidades deflagradoras da paralisação.

Nos últimos dias, tornaram-se crescentes os relatos da presença, entre os manifestantes, de pessoas que não são caminhoneiros. Caracterizam-se pela capacidade de retórica, geralmente pregando soluções extremistas, e pela incansável atuação para manter alta a temperatura dos protestos.

PRF investigará ação de infiltrados, diz ministro

O mesmo aconteceu em 2013. A partir de determinado momento, as organizações que lançaram as passeatas pela redução do preço da passagem de ônibus resumiram suas tarefas à marcação de data dos protestos. A pauta, o comportamento e o perfil dos participantes já haviam fugido do controle.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou na segunda-feira (28) que Polícia Rodoviária Federal (PRF) vai investigar e separar possíveis infiltrados políticos nas manifestações, denunciados por líderes de entidades de caminhoneiros. Setores da direita estão rachados. Enquanto os extremistas e ultranacionalistas se apegam à intervenção, os identificados com o liberalismo se mostram preocupados.

Empresários do setor construíram aproximação com o deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro (PSL-RJ), declarado defensor da ditadura. Em junho de 2017, ele foi o principal convidado a palestrar na 19ª Feira e Congresso de Transporte e Logística (Transposul), em Porto Alegre, evento organizado pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística no Estado (Setcergs), agora alvo de investigação por locaute. Naquela ocasião, Cláudio Antonio Cavol, presidente do Sindicato do Transporte de Cargas do Mato Grosso do Sul (Setlog-MS), afirmou que a categoria apoiava Bolsonaro e prometeu adesivar caminhões Brasil afora. Ainda assim, é uma afinidade na seara da democracia, já que o capitão da reserva é pré-candidato à Presidência, o que contraria as incitações de novo golpe militar.

Contradições ideológicas na disputa por protagonismo 

A esquerda, que sempre esteve na dianteira de greves e protestos, agora observa atônita. Além de não ter protagonismo, guarda dúvidas sobre como se posicionar. Entre ações e consequências, surgem contradições. Como, por exemplo, apoiar a greve dos caminhoneiros no momento em que a mobilização pende ao autoritarismo de extrema-direita.

– Isso acontece muito pela instabilidade de um governo que ninguém quer. Todas as greves têm contradições. O que estamos tentando fazer agora é, em primeiro lugar, ajudar os caminhoneiros. Em segundo, politizar a greve. Acrescentar outros setores e organizar greve geral. O objetivo é derrubar esse governo. E chamar eleições. O povo que escolha – diz Érico Correa, da central sindical CSP-Conlutas.

Os petroleiros, em grande parte ligados à Central Única dos Trabalhadores (CUT), de histórico de afinidade com o PT, farão três dias de paralisação a partir desta quarta-feira. Parente tenta negociar com a categoria, a pedido de Temer, para que a paralisação não aconteça. No total, funcionários de 13 bases afiliadas à Federação Única dos Petroleiros irão cruzar os braços.

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