Após a soltura do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro e dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, presos na quarta-feira, 22, e liberados na tarde de hoje, 23, veio a público o relatório do MPF (Ministério Público Federal) que mostra que a denúncia feita por José Edvaldo Brito foi de vital importância para desarticular a rede de corrupção criada pelos ditos religiosos em torno do MEC (Ministério da Educação e Cultura).

Edvaldo foi umas das primeiras pessoas a alertar as autoridades federais sobre os pedidos de ajuda financeira dos pastores em relação ao “Gabinete Itinerante”, projeto do ministério que levava o ex-ministro até cidades do interior do Brasil para ouvir as demandas locais.

Ele prestou dois depoimentos para a CGU (Controladoria Geral da União) e apresentou documentos que provaram que os pastores receberam pelo menos R$ 67 mil, além de passagens aéreas. Ele salientou que Milton Ribeiro jamais fez pedido algum e, quando alertado, procurou a CGU imediatamente para denunciar o caso.

“Sou ativista da educação há muitos anos e, como conhecia o trabalho do ministro Milton Ribeiro, um homem sério, passei a fazer um voluntário na região para tudo aquilo que se fizesse necessário para as cidades melhorarem esse setor, sempre de forma voluntária e gratuita. Como conheço e tenho amizade com diversos prefeitos da região por ter sido candidato a prefeito de Piracicaba, busquei ajudá-los. Sou nordestino, filho de pais analfabetos, todos os meus irmãos mais velhos são analfabetos, fui o único a ter oportunidade de estudar e sei da importância disso, como saber ler, escrever, se formar, muda o cidadão e dá chances dele melhorar de vida,” disse.

Brasília

Após conversas, ele descobriu que os pastores Gilmar e Arilton poderiam ajudar a trazer o ministro para visitar a região. “Algumas pessoas me indicaram o pastor Arilton como uma liderança evangélica que realizava cultos durante a noite e, durante o dia, trazia o ministro com seu Gabinete Itinerante. Os eventos não eram ligados em si, depois do Gabinete Itinerante os pastores ficavam na cidade para fazer um culto com os pastores da cidade. Então fui conhecê-lo e pedir ajuda a trazer o projeto para a região,” contou.

Os pastores pediram que ele fosse a Brasília, onde Edvaldo e o prefeito de Nova Odessa, Cláudio José Schooder, o Leitinho, se encontraram com o então ministro e gravaram um vídeo. Apenas depois desse encontro os pedidos de “ajuda” por parte de Arilton começaram.

“Alguns dias depois do encontro no ministério, o Arilton me ligou e disse que realizava um trabalho missionário tanto no Brasil quanto fora dele. Para nós cristãos, ajudar povos em dificuldades, ajudar a construir igrejas, ajudar a manter pastores lá, é muito importante. Na época entendi esse pedido como normal, afinal, ele representava a direção nacional de uma igreja. Quando ele me disse o valor, algo em torno de R$ 100 mil, expliquei que não havia como eu pagar, mas procuraria empresários amigos que já fazem caridade e ajudam pessoas em necessidade. A partir daí conversei com alguns amigos que já ajudavam nesse tipo de obra, inclusive pessoas de outras denominações não ligadas a do pastor,” explicou.

Passagens aéreas

Uma dessas pessoas foi um empresário que doou os R$ 67 mil. O valor, inclusive, foi declarado no Imposto de Renda dele. Mas foi durante a organização para o evento em Nova Odessa que Edvaldo começou a perceber que havia algo estranho nos pedidos dos pastores.

“Mais tarde percebi que o Arilton cada vez mais pedia coisas e no meio disso tudo Deus me deu um estalo, me alertou que o pastor estava extrapolando. Quando comecei a desconfiar e sei também da seriedade do prefeito de Nova Odessa, pensei: se tiver alguma coisa errada mesmo, ao invés de ajudar estou atrapalhando, então cheguei no secretário de governo e pedi o controle do evento para ficar de olho. A partir daí segurei tudo do evento no meu controle e fui percebendo cada vez mais aquela conversa mansa, pedindo cada vez mais coisas e desconfiei do trabalho missionário. ‘Quero passagem, passagem, passagem’, começaram a passar nomes e nomes, com muita exigência e chegou uma hora que já não suportava a pressão dele, a ponto de questioná-lo se o ministro só viria com isso e ele disse que não, mas que ele poderia ‘melar’ a visita.”

Mais uma vez Edvaldo procurou lideranças e empresários para a realização de uma vaquinha para bancar as passagens aéreas. “Mas eram tantas as exigências que passagens que custariam no total R$ 10 mil, acabaram saindo por R$ 28 mil. Fomos arrecadando dinheiro e pagando as passagens aos poucos, comprando uma ou duas por vez. Mas no dia do evento foi que finalmente entendi tudo e dei um basta naquilo”, salientou.

Em depoimento, ele contou que “no dia do evento ele pediu uma oferta de mais R$ 10 mil e depois que o evento acabou ele me disse ‘e agora, onde você reservou para pagar a janta?´ Foi então que eu disse pra ele ´pague do seu bolso, filho do demônio´. Foi meu último diálogo com o Arilton. Comecei então a procurar outros canais para alertar o ministro do que estava acontecendo, até conseguir uma reunião privada com ele que, quando soube, levou o caso imediatamente para a CGU.

Nova caravana, sem os pastores

A denúncia ao ministro e à CGU surtiu efeito, tanto é que Edvaldo conseguiu levar o Gabinete Itinerante para a região de Ribeirão Preto, cerca de dois meses depois do evento em Nova Odessa, desta vez para a cidade de Monte Alto. Os pastores já estavam sendo investigados na ocasião.

“É uma pena tudo o que aconteceu, como o ministro Milton Ribeiro foi usado e enganado por essas pessoas, só tenho a lamentar que uma iniciativa tão importante como o Gabinete Itinerante do Ministério da Educação, que apenas no evento de Nova Odessa reuniu mais de 70 prefeitos da região, que puderam apresentar suas demandas diretamente ao ministro, tenha sido usado por essas pessoas sem escrúpulos. Perdemos todos nós, cidadãos, pais, políticos que realmente se importam com a educação e o destino das nossas crianças. Eu fiz a minha parte e vou continuar a fazer, o corrupto que topar comigo vai ter que se explicar para a Polícia Federal, sempre”, finalizou Edvaldo.

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