Professor Correia

a palavra ethos significava “morada”. Não sendo arquitetura ou técnica de construção, ethos é habitat, “toca”, (buraco onde se abrigam certos animais) mas também o fato e a maneira de habitá-la. A modesta tenda do caçador

“Oca é uma habitação típica dos povos indígenas. A palavra tem sua origem na família linguística tupi-guarani. As ocas são construídas coletivamente, ou seja, com a participação de vários integrantes da tribo. São grandes, podendo chegar até 40 metros de comprimento”.

“Para Aristóteles seria insensato e mesmo ridículo (geloion) querer demonstrar a existência do ethos, assim como é ridículo querer demonstrar a existência da physis. Physis e ethos são duas formas primeiras de manifestação do ser, ou da sua presença, não sendo o ethos senão a transcrição da physis na peculiaridade da praxis ou da ação humana e das estruturas histórico-sociais que dela resultam. No ethos está presente a razão profunda da physis (era a divindade primordial da natureza e um dos primeiros seres a surgir no princípio dos tempos) que se manifesta no finalismo do bem e, por outro lado, ele rompe a sucessão do mesmo que caracteriza a physis como domínio da necessidade, com o advento do diferente no espaço da liberdade aberto pela praxis. Embora enquanto autodeterminação da praxis o ethos se eleve sobre a physis, ele reinstaura, de alguma maneira, a necessidade da natureza ao fixar-se na constância do hábito (hexis). Demonstrar a ordem da praxis, articulada em hábitos ou virtudes, não segundo a necessidade transiente da physis, mas segundo o finalismo imanente do logos ou da razão, eis o propósito de uma ciência do ethos tal como Aristóteles se propõe constituí-la, coroando a tradição socrático-platônica. A Ética alcança, assim, seu estatuto de saber autônomo, e passa a ocupar um lugar preponderante na tradição cultural e filosófica do Ocidente.

 O termo ethos é uma transliteração dos dois vocábulos gregos ethos (com eta inicial) e ethos (com épsilon inicial). É importante distinguir com exatidão os matizes peculiares a cada um desses termos. Por outro lado, se a eles acrescentarmos o vocábulo hexis, de raiz diferente, teremos definido um núcleo semântico a partir do qual será possível traçar as grandes linhas da Ética como ciência do ethos.

A primeira acepção de ethos (com eta inicial) designa a morada do homem (e do animal em geral). O ethos (eta inicial) é a casa do homem. O homem habita sobre a terra, acolhendo-se ao recesso seguro do ethos (eta inicial). Este sentido de um lugar de estada permanente e habitual, de um abrigo protetor, constitui a raiz semântica que dá origem à significação do ethos como costume, esquema praxeológico durável, estilo de vida e ação. A metáfora da morada e do abrigo indica justamente que, a partir do ethos (eta inicial), o espaço do mundo torna-se habitável para o homem. O domínio da physis ou o reino da necessidade é rompido pela abertura do espaço humano do ethos (eta inicial) no qual irão inscrever-se os costumes, os hábitos, as normas e os interditos, os valores e as ações. Por conseguinte, o espaço do ethos (eta inicial) enquanto espaço humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído. Nunca a casa do ethos (eta inicial) está pronta e acabada para o homem, e esse seu essencial inacabamento é o signo de uma presença a um tempo próxima e infinitamente distante, e que Platão designou como a presença exigente do Bem, que está além de todo ser (ousia) ou para além do que se mostra acabado e completo.

É, pois, no espaço do ethos (eta inicial) que o logos torna-se compreensão e expressão do ser do homem como exigência radical de dever-ser ou do bem. Assim, na aurora da filosofia grega, Heráclito entendeu o ethos (eta inicial) na sua sentença célebre: ethos anthropo daimon. O ethos (eta inicial) é, na concepção heraclítica, regido pelo logos, e é nessa obediência ao logos que se dão os primeiros passos em direção à Ética como saber racional do ethos (eta inicial), assim como irá entendê-la a tradição filosófica do Ocidente.

 A segunda acepção de ethos (com épsilon inicial) diz respeito ao comportamento que resulta de um constante repetir-se dos mesmos atos. É, portanto, o que ocorre frequentemente ou quase sempre (pollakis), mas não sempre (aei), nem em virtude de uma necessidade natural. Daqui a oposição entre ethei e physei, o habitual e o natural. O ethos, nesse caso, denota uma constância no agir que se contrapõe ao impulso do desejo (orexis). Essa constância do ethos como disposição permanente é a manifestação e como que o vinco profundo do ethos como costume, seu fortalecimento e o relevo dado às suas peculiaridades. O modo de agir (tropos) do indivíduo, expressão da sua personalidade ética, deverá traduzir, finalmente, a articulação entre o ethos como caráter e o ethos como hábito.

 Mas, se o ethos (com épsilon inicial) designa o processo genético do hábito ou da disposição habitual para agir de uma certa maneira, o termo dessa gênese do ethos – sua forma acabada e o seu fruto – é designado pelo termo hexis, que significa o hábito como possessão estável, como princípio próximo de uma ação posta sob o senhorio do agente e que exprime a sua autarkeia, o seu domínio de si mesmo, o seu bem. Entre o processo de formação do hábito e o seu termo como disposição permanente para agir de acordo com as exigências de realização do bem ou do melhor, o ethos se desdobra como espaço da realização do homem, ou ainda como lugar privilegiado de inscrição da sua praxis.

 Enquanto ação ética, a praxis humana é a atualização imanente (energeia) de um processo estruturado segundo uma circularidade causal de momentos, e essa constitui exatamente o primum notum, a evidência primeira e fundadora da reflexão ética. O ethos como costume, ou na sua realidade histórico-social, é princípio e norma dos atos que irão plasmar o ethos como hábito (ethos-hexis). Há pois, uma circularidade entre os três momentos: costume (ethos), ação (praxis), hábito (ethos-hexis), na medida em que o costume é fonte das ações tidas como éticas e a repetição dessas ações acaba por plasmar os hábitos. A praxis, por sua vez, é mediadora entre os momentos constitutivos do ethos como costume e hábito, num ir e vir que se descreve exatamente como círculo dialético: a universalidade abstrata do ethos como costume inscreve-se na particularidade da praxis como vontade subjetiva, e é universalidade concreta ou singularidade do sujeito ético no ethos como hábito ou virtude. A ação ética procede do ethos como do seu princípio objetivo e a ele retoma como a seu fim realizado na forma do existir virtuoso.”

 (Henrique Lima Vaz, “Escritos de Filosofia II”)

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