Com 33%, Bolsonaro não é nem de longe uma unanimidade, nem chega perto de ser a preferência da maioria dos evangélicos, mas tem nessa última pesquisa do Ibope pelo menos o triplo das intenções de voto da Marina (10%), Alckmin (10%), Ciro (7%) e Haddad (6%). [1]

Em 1991, 9% da população do país se declarava evangélica, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2010, o grupo chegou a 22%. Segundo pesquisa Datafolha publicada em dezembro de 2017, os fiéis dessa religião correspondem a 32% dos brasileiros. O apoio dos evangélicos será decisivo nessas eleições como nunca antes na história desse país. [2]

Mas por que os evangélicos votam em Bolsonaro?

O medo ligado a pautas identitárias

Os evangélicos têm muito medo do governo. A história desse medo remonta à origem dos evangélicos no Brasil: os missionários americanos conservadores que vieram, de terno e gravata, pregar o “evangelho” aos brasileiros. No período da Guerra Fria, nos anos 1980, os EUA fizeram uma enorme propaganda contra a esquerda: que eram ateus e que proibiriam o cristianismo. A ligação do PT com a igreja católica (vista como inimiga pelos evangélicos nos anos 1980) só fez aumentar essa desconfiança.

Existe um medo de que as pautas morais dos evangélicos serão atacadas por candidatos da esquerda (porque não há nenhum candidato propriamente liberal nos costumes nessas eleições). Os evangélicos são conservadores se preocupam com o aborto, a legalização das drogas, o apoio às causas LGBT, as cotas para negros, enfim, eles se posicionam com firmeza em relação às causas identitárias e querem um candidato que esteja do lado deles nisso. A economia, a segurança, a saúde, habitação, etc. ficam em segundo plano.

Bolsonaro, seguindo o recente sucesso da extrema-direita nos EUA e na Europa, sabe manipular esse sentimento.

Ele usa notícias falsas, cria conspirações inexistentes, faz promessas extremas, usa frases de efeito, tudo para se posicionar como a melhor solução para esse medo que os conservadores têm do campo progressista.

Nos Estados Unidos, essas pautas identitárias foram decisivas na eleição de Trump. No Brasil, cada vez mais a esquerda precisará aprender a conversar com os evangélicos mais conservadores para se eleger. Isso não quer dizer abandonar o cuidado com as minorias, mas saber lidar com o sentimento de medo e compreender aquilo que o próprio evangelho traz de conteúdo sobre o cuidado com os mais oprimidos. [3]

A estética do autoritarismo

Uma coisa que causa horror a qualquer pessoa que ame a democracia e a liberdade é a postura autoritária e militarista de Bolsonaro.

Enquanto o comando e controle é fundamental numa operação militar (onde tudo precisa ser decidido numa fração de segundos, sem tempo para qualquer debate), na gestão pública as ditaduras (de qualquer matiz ideológica) se mostraram historicamente um fracasso enorme, destruindo os países por onde passou.

Mas os evangélicos estão acostumados com o autoritarismo e gostam dessa linguagem.

Enquanto os batistas, anglicanos e outros cristãos históricos elegem seus líderes eclesiásticos, os evangélicos se submetem à autoridade “espiritual” de um pastor que é escolhido (ou “ungido”, uma expressão ligada à antiga monarquia na bíblia) para essa posição por outro pastor.

Numa igreja batista, se os membros acham que o pastor está equivocado, eles podem fazer uma assembleia, discutir livremente o assunto e o pastor deve se submeter à vontade da igreja. Entre os evangélicos, se alguém acha que o pastor está equivocado, essa pessoa é tratada como um “rebelde” e é mal vista pela comunidade. A palavra-chave do relacionamento entre membros de igrejas evangélicas e seus pastores é obediência. Sem questionamento.

Por isso, a postura autoritária de Bolsonaro não assusta os evangélicos. Muito pelo contrário, seu jeito de falar como se fosse a última autoridade sobre qualquer assunto (mesmo que o que ele fale não faça o menor sentido, ou que sua resposta seja “não sei, vou perguntar no posto Ipiranga”), é familiar aos evangélicos e lhes traz uma sensação de segurança. Eles estão acostumados a obedecer a um líder autoritário e sentem nele o conforto de confiar em alguém e não precisar pensar.

A questão da corrupção sempre será uma falsa questão, isso porque absolutamente ninguém é a favor da corrupção e todas as ideologias, da extrema direita à extrema esquerda, procuram combater a corrupção. A questão é justamente que, enquanto o campo progressista busca fazer isso fortalecendo as instituições democráticas, a extrema direita dá um soco na mesa, fala grosso e assume uma postura corporal dura que dá a entender que acabar com a corrupção será tão fácil quanto dar uma ordem e esperar que os corruptos obedeçam. Nada poderia ser mais equivocado. No final das contas, como ficou comprovado em toda a América Latina, o autoritarismo e a ditadura só fazem aumentar a corrupção.

Mas a postura autoritária, para quem está acostumado a ela, dá uma falsa sensação de segurança, de que o líder será capaz de acabar com a corrupção a golpe de frase feita. Os conservadores não gostam de Bolsonaro porque ele não é corrupto (até porque o caso da Wal mostrou que isso não é verdade), mas porque ele usa da linguagem que eles entendem para atacar qualquer problema de indisciplina: o grito e a violência de terno e gravata.

As contradições entre Bolsonaro e a mensagem de Jesus Cristo no Sermão do Monte

Essas são duas razões que me parecem razoáveis para explicar o apoio de um terço dos evangélicos a Bolsonaro. Mas é preciso lembrar que um terço está longe de ser maioria. E para se eleger presidente, é preciso ter a maioria dos votos.

Os dois terços dos evangélicos que não apoiam Bolsonaro têm uma compreensão mais clara do Evangelho de Cristo e das profundas contradições entre a política beligerante do candidato da direita e os ensinamentos bíblicos.

Bolsonaro diz que “O erro da ditadura foi torturar e não matar”, “Pinochet devia ter matado mais gente.”, “A PM devia ter matado 1.000 e não 111 presos.”. [4]

Mas Jesus Cristo diz: “Vocês conhecem bem o mandamento dos antigos: ‘Não matarás’. Pois afirmo que qualquer que guarde rancor de um irmão é culpado de assassinato. Chame um irmão de “idiota”, e você corre o risco de parar num tribunal. Chame sua irmã de “burra”, e estará no limiar do inferno. O simples fato moral é que palavras matam.” [5]

Bolsonaro diz que “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida.”, “Não te estupro porque você não merece.”, “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.”, “Não vou combater nem discriminar, mas se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.”. [4]

Bolsonaro diz que ensinou os próprios filhos a atirar quando eles tinham cinco anos e que “encoraja, sim”, esse tipo de prática (ensinar crianças a atirar) [6] e vê no armamento da população a solução para a violência, porque “bandido bom é bandido morto”. [7]

Mas Jesus Cristo diz: “Vocês conhecem a antiga lei: ‘Amem seus amigos’, e seu complemento não escrito: ‘Odeiem seus inimigos’. Quero redefinir isso. Digo que vocês devem amar os inimigos. Deixem que tirem o melhor de vocês, não o pior. Se alguém fizer mal a vocês, reajam com a força da oração, pois assim agirão do fundo do seu verdadeiro ser, do ser que Deus criou. É o que Deus faz. Ele dá o melhor — o Sol que aquece e a chuva que traz vida — a todos, sem distinção: os bons e os maus, os simpáticos e os antipáticos. Se tudo que vocês fazem é amar apenas quem é amável, que recompensa esperam receber? Qualquer um pode fazer isso. Querem uma medalha por cumprimentar apenas os que são simpáticos com vocês? Qualquer pecador desqualificado age assim.” [5]

A lei maior do evangelho é a lei do amor. Bolsonaro prega o ódio — não importa se é o ódio aos imigrantes, negros, homossexuais e mulheres como diz a esquerda, ou se é só um ódio aos bandidos e corruptos como dizem seus apoiadores — qualquer tipo de ódio recebe a mais severa condenação de Cristo.

Por isso, o apoio de um terço dos evangélicos a um candidato autoritário que prega o ódio nada mais é do que um reflexo de uma eclesiologia equivocada, que fomenta uma cultura do autoritarismo, preparando o terreno para fascistas como Bolsonaro e uma teologia que se desviou do amor para uma ideia profundamente anti-cristã de que o moralismo está acima de tudo e que “os fins justificam os meios”.


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